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CARTA DO MOVIMENTO MUNDURUKU IPEREĞ AYŨ MANIFESTAÇÃO ALDEIA KABAREWUN TI KAYABI

Nós, o movimento Munduruku Ipereğ Ayũ, mulheres, crianças, caciques, lideranças, pajés denunciamos as ações de empresas como São Manoel, Dákila e Colider em nossos territórios e a forma como vêm sendo conduzidos atividades que afetam diretamente o povo Munduruku, do Alto e Médio Tapajós. 


Manifestamos nossa indignação com a invasão de funcionários de empresas na Aldeia  Kabarewun – TI Munduruku e Kayabi, localizada no baixo Rio Teles Pires. Na tarde deste dia 22 de janeiro de 2026, um desses grupos foi encontrado no território, próximo à Aldeia. Por várias vezes o Movimento, caciques, pajés e lideranças denunciaram este tipo de atividade, que tira a privacidade, a paz e leva à situações de divisão da comunidade e até medo desses invasores. 


Mesmo com os diversos avisos, fomos novamente surpreendidos por invasores que se identificaram como ligados à empresa São Manoel. Os dois homens estão em segurança, bem tratados e permanecem na Aldeia. Embora tenha havido um início de diálogo, com a mediação do MPF, é necessário a presença da Empresa e da Funai em nosso território, para realização de uma reunião presencial e para que expliquem tais atividades (captura de ovas, amostras de peixes) e as pesquisas que estão sendo realizadas relacionadas à hidrelétrica. Essas atividades acabam matando nossos peixes e nós não permitimos isso dentro de nosso território.


A empresa deveria saber que não é permitida a entrada de Pariwat em Aldeia Indígena sem a oitiva e autorização prévia das comunidades, e nós não autorizamos as mortes dos peixes e nem a coleta de suas ovas. A permanência destas pessoas (supostamente pesquisadores da empresa) ocorre como instrumento legítimo de pressão e cobrança política, diante da reiterada omissão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da ausência de respostas institucionais e da condução irresponsável das empresas envolvidas. Essa medida se dá frente devido não existir diálogo e à falta de transparência nas ações que atingem o território e a vida do povo Munduruku. 


Denunciamos também a falta de informações claras, acessíveis e adequadas por parte dos órgãos responsáveis, em especial a Funai, bem como das próprias empresas envolvidas. Até o momento, não foram garantidos processos de formação, orientação e diálogo suficientes junto às associações, coletivos, caciques, lideranças e demais membros das comunidades afetadas.


Exigimos, de forma imediata e inegociável, a suspensão total das atividades realizadas pelas empresas Dakila, São Manoel e Colider no território Munduruku, até que sejam plenamente esclarecidas todas as autorizações, licenças e responsabilidades legais envolvidas. Exigimos, ainda, que a Funai e os demais órgãos competentes cumpram seu dever institucional, garantindo informações claras, acessíveis e completas ao povo Munduruku, bem como a reparação integral dos danos já causados, sejam eles ambientais, sociais, culturais ou territoriais. Pedimos a atuação do MPF e DPU para que promovam esses pedidos de reparação.


A ausência de informações técnicas, jurídicas e ambientais compromete o direito do povo Munduruku à consulta livre, prévia e informada, conforme assegurado pela Constituição Federal e pela Convenção 169 da OIT. Não é possível aceitar decisões, projetos ou intervenções que avancem sem que o povo seja devidamente informado, ouvido e respeitado.


Reivindicamos, portanto, a atenção imediata da Funai e das empresas para que atendam às demandas apresentadas pelo movimento, garantindo transparência, formação adequada, acesso às informações completas e respeito às decisões coletivas do povo Munduruku. Exigimos também: 


1. Sobre a entrada sem consulta e as pesquisas com peixes

Pedimos que parem imediatamente as pesquisas feitas por pessoas das hidrelétricas em nosso território sem consulta. Estão matando peixes, abrindo seus corpos e recolhendo ovas, sem nossa autorização. Para nós, o peixe só deve ser morto para alimentação. Essas práticas adoecem a axima xi, a mãe dos peixes, e desequilibram o rio. Nosso conhecimento vem da convivência e precisa ser respeitado.


2. Sobre os danos espirituais causados pelas hidrelétricas.

Pedimos que reconheçam que os danos das hidrelétricas não são só ambientais. Quando o rio adoece, nosso povo adoece junto. Os espíritos que cuidam do território estão sendo feridos, e isso ameaça nossa forma de viver.


3. Sobre os lugares sagrados destruídos

Pedimos reconhecimento e reparação pela destruição dos ipi cekay piat, especialmente a aldeia dos Ajojoyu, onde estão nossos espíritos sagrados e no Karo Bixexe, onde a usina hidrelétrica do baixo Teles Pires está localizada. Esses lugares não podem ser mexidos. Nossos antepassados vivem no mesmo território que nós, e a destruição desses lugares rompe nossa proteção e nossa história.


O povo Munduruku não aceitará a continuidade de ações impostas, sem consulta, sem formação adequada e sem respeito às decisões coletivas. Aguardamos a presença da Empresa e da FUNAI em nosso território para dar continuidade ao diálogo, até lá as pessoas permanecerão em segurança, com sua integridade física garantida, sob acompanhamento coletivo, conforme os princípios de organização e proteção do povo Munduruku. Seguiremos mobilizados, organizados e vigilantes, responsabilizando os órgãos e empresas por qualquer violação de direitos que venha a ocorrer.


Em 24 de janeiro de 2026.

Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ


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