Brasileiros trabalham mais para comer e mais para pagar banco; crédito vira política social substituta
- há 3 horas
- 3 min de leitura
Alta da cesta básica, explosão do endividamento e expansão de novas linhas de crédito expõem contradições da política econômica; especialistas alertam para substituição de renda por dívida

E-mail: contato@inforevolucao.com
BELÉM (PA) — Enquanto o custo da alimentação sobe e corrói o salário dos trabalhadores, o Brasil aprofunda um modelo em que o crédito substitui políticas estruturais de valorização da renda. Dados do DIEESE revelam que 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, o maior patamar da série histórica iniciada em 2010, enquanto a cesta básica subiu em todas as 27 capitais pelo segundo mês consecutivo. Em Belém, o conjunto de alimentos essenciais chegou a R$ 727,70, comprometendo 48,53% da renda líquida de quem recebe salário mínimo.
O cenário revela uma contradição no centro da política econômica nacional do governo do presidente Lula – PT/Frente Ampla: diante da perda do poder de compra da população, a resposta predominante não tem sido reajuste geral de salários, controle sobre tarifas essenciais ou medidas de contenção da inflação alimentar, mas sim a ampliação de mecanismos de crédito e renegociação de dívidas.
O levantamento do DIEESE mostra que o endividamento das famílias deixou de estar concentrado na aquisição de patrimônio e passou a ser utilizado como complemento de renda para despesas correntes. 84,9% das famílias endividadas recorrem ao cartão de crédito, principal modalidade da dívida popular. O crédito pessoal também avançou fortemente, saltando de 8,4% para 12,6% entre 2019 e 2026.
A deterioração fica ainda mais evidente quando se observam os juros cobrados. Segundo o estudo, enquanto a taxa Selic disparou para patamares elevados, os juros médios para pessoa física chegaram a 61% ao ano. Nas modalidades mais utilizadas pela população trabalhadora, o peso é brutal: 425% ao ano no rotativo do cartão de crédito e 118% no crédito pessoal.
Ao mesmo tempo, o governo federal aposta na ampliação de programas de renegociação e novas modalidades de crédito, inclusive voltadas a trabalhadores formais, sob o argumento de reorganização financeira das famílias. Para críticos dessa política, trata-se de uma solução paliativa que mantém a lógica do sistema financeiro: em vez de aumentar renda, oferece parcelamento.

Os números ajudam a explicar o mal-estar social mesmo diante de indicadores macroeconômicos positivos. O DIEESE aponta que 82,8 milhões de brasileiros estão inadimplentes, equivalente a 51% da população adulta, com dívida média de R$ 6.728,51. O comprometimento da renda familiar com pagamento de dívidas saltou de 23,1% para 29,7% desde 2019.
Na prática, a renda cresce menos quando passa primeiro pelo sistema bancário. O próprio DIEESE aponta que, embora o rendimento médio dos ocupados tenha avançado, a renda real dos trabalhadores endividados cresce em ritmo muito inferior após o pagamento das dívidas.
Em Belém, o peso da crise é concreto no carrinho de compras. O feijão carioca acumula 50% de alta em 12 meses, enquanto o tomate subiu 43,25% apenas no acumulado deste ano.
Para entidades sindicais do funcionalismo municipal da capital paraense, “insistir no crédito como válvula de escape enquanto alimentos, energia, água, transporte e gás seguem pressionando o orçamento popular significa transformar o trabalhador em refém permanente do endividamento”, afirma a professora Silvia Leticia da Coordenação do SINTEPP Belém (Sindicato da educação municipal).
“A questão que emerge é política: se a economia cresce, por que o trabalhador continua precisando pedir empréstimo para fechar o mês?”, conclui a dirigente sindical.
(Matéria em atualização)
CLIQUE NO ARQUIVO PARA BAIXAR DOCUMENTO EM PDF
CLIQUE NO ARQUIVO PARA BAIXAR DOCUMENTO EM PDF














Comentários