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CIÊNCIA INDÍGENA: ENTRE OS GRÁFICOS DE AVANÇO E O CHÃO DA VIOLÊNCIA EPISTÊMICA

  • há 21 horas
  • 3 min de leitura
Imagem gerada por IA
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 POR MARIANA TIKUNA

 

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou recentemente uma nota sobre o estudo intitulado “A liderança indígena nos grupos de pesquisa no Brasil: um panorama por grandes áreas do conhecimento de 2000 a 2023”, de autoria dos pesquisadores Igor Tupy e Tulio Chiarini. O estudo apresenta dados históricos sobre o aumento do número de pesquisadores indígenas dentro dos muros da academia.


Entre 2000 e 2023, o número de pesquisadores indígenas liderando grupos de pesquisa no Brasil saltou de 46 para 252 — um crescimento de mais de 500% em termos absolutos. As mulheres indígenas já são maioria na liderança das Ciências da Vida (https://share.google/8SrajEa41PMr02oFc). 


Esses dados representam conquistas reais, duramente construídas, e merecem ser celebradas, mas os números têm um avesso. Aqui, trazemos o que está por trás desses números, que são os custos humanos, a violência simbólica, física e a esperança coletiva que nenhum gráfico consegue capturar.

Entrar na academia, para nós, povos indígenas, não se faz por uma trajetória individual, de mérito. É uma travessia coletiva que começa muito antes de adentrar as portas da universidade. Embora as políticas afirmativas garantam o acesso a universidade, elas não dão conta da permanência, que é atravessada por uma profunda violência socioeconômica e epistemológica.

Um exemplo recente é a violência sofrida por um jovem do povo Galibi Marworno que foi assaltado na primeira vez que saiu de sua terra para fazer o mestrado na Universidade Federal do Pará - UFPA, em Belém. A agressão física nas cidades é, com frequência, o cartão de visitas para quem deixa o território em busca de ferramentas para defendê-lo.


Dentro dos muros da universidade, mesmo com toda a sua etnodiversidade, a violência muda de forma, mas não de intensidade. É a violência ontológica, o tribunal invisível que submete pesquisadores indígenas, diariamente, ao escrutínio de pares que desconfiam ao mesmo tempo de seus conhecimentos científicos e de sua ancestralidade.


Se dominamos a linguagem acadêmica, questionam nossa identidade étnica. Se insistimos nas nossas epistemologias territorializadas, somos reduzidos ao lugar do saber mítico. É o cansaço estrutural de ter que provar, todo dia, que somos sujeitos de conhecimento e não objetos de curiosidade antropológica.


Há outro fenômeno que os dados não capturam, o que poderíamos chamar de "tokenismo de abril". No mês do "Abril Indígena", as nossas caixas de e-mail, redes sociais e whats App transbordam de convites para mesas, palestras e fotos institucionais. As universidades querem se "colorir" com a presença e rostos indígenas se afirmando serem plurais, mas não são, de fato, pluriepistêmicas.


A pergunta que fica é: onde estão essas instituições de maio a março? As comunidades enfrentam invasões, crises climáticas e impactos de grandes empreendimentos o ano inteiro. A agenda indígena não tem mês temático.


É aqui que o estudo do IPEA toca em algo fundamental, mesmo sem nomear dessa forma. O líder de um grupo de pesquisa define as linhas de investigação e para onde vai o recurso. Quando um indígena ocupa esse posto, a lógica se transforma. A ciência deixa de ser sobre nós e passa a ser nossa.


O grupo Wayrakuna, liderado pela Dra. Raquel Pataxó, primeiro grupo constituído exclusivamente por mulheres indígenas cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, é a afirmação prática disso. Pesquisa como instrumento de luta, voltado à solução de problemas reais nas comunidades, à valorização de narrativas próprias e à visibilidade de epistemes territorializadas.


Quando nós, pesquisadores indígenas, entramos na universidade, não entramos sozinhos. Nossa etnia entra conosco. Também trazemos a esperança de levar melhorias para nossos territórios e de abrir caminhos para que as próximas gerações não percorram a mesma maratona de legitimação.


Nós entramos com bravura, coragem e, sobretudo, com o sonho de que os próximos possam chegar à academia já reconhecidos como sujeitos de conhecimento e não como objetos de curiosidade ou de eterna validação dos não indígenas.


Os números do IPEA mostram que esse movimento está em curso. A estrutura acadêmica ainda é um território a ser contracolonizado, mas agora, neste histórico momento, ele também está sendo disputado, por dentro, por quem também tem o direito de fazê-lo. O que precisamos refletir é: a ciência brasileira será pluriétnica, ou continuará sendo apenas um eco do pensamento colonial?

Fonte: Ipea — "Proporção de indígenas na liderança de grupos de pesquisa cresce mais de 50% em 23 anos" (17/04/2026). Estudo de Igor Tupy e Tulio Chiarini (Diset/Ipea), com base no Censo do Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP/CNPq). Boletim Radar nº 81, lançamento previsto em 4 de maio de 2026.


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