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JARDIM DOS ENCANTADOS TRANSFORMA PAJELANÇA MARAJOARA EM PATRIMÔNIO VIVO DE RESISTÊNCIA CULTURAL

  • há 8 horas
  • 5 min de leitura

Projeto idealizado pela professora indígena Mariana Tikuna une saberes ancestrais, pesquisa científica e preservação da memória amazônica no coração do Marajó


Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Por Redação Info.Revolução

Jornalismo independente em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, dos povos dos rios e das florestas.



BELÉM (PA) — Em um momento em que povos originários e comunidades tradicionais lutam para preservar seus conhecimentos diante do avanço da homogeneização cultural, um projeto aprovado pela Lei Semear surge como uma das mais importantes iniciativas de valorização do patrimônio imaterial amazônico.


Idealizado pela professora indígena Mariana Neves Cruz Mello, conhecida como Mariana Tikuna, o projeto "Jardim dos Encantados: Vivência, Ervas e Pajelança Cabocla no Sítio São Sebastião Glorioso" propõe a criação de um complexo cultural permanente dedicado à salvaguarda da Pajelança Cabocla Marajoara, no município de Soure, no arquipélago do Marajó.


Aprovado pela Fundação Cultural do Pará por meio do Edital Semear 001/2026, o projeto será executado entre abril de 2026 e janeiro de 2027 e contará com investimento de R$ 581.641.


Mais do que um espaço cultural, a iniciativa pretende consolidar um território de memória, formação, pesquisa e transmissão de saberes ancestrais.

A força de uma tradição que resiste

A Pajelança Cabocla Marajoara é uma das expressões culturais mais singulares da Amazônia.


Resultado do encontro histórico entre povos indígenas, populações negras e comunidades caboclas, ela reúne conhecimentos sobre espiritualidade, cura, uso de plantas medicinais, cantos, rezas e a relação profunda entre seres humanos e natureza.


Segundo o projeto, trata-se de um patrimônio imaterial vivo, construído ao longo de séculos pelas populações do Marajó.


"É medicina viva, cosmologia amazônica e filosofia de vida que sobreviveu à colonização, às epidemias e ao esquecimento imposto pelo Estado", registra a proposta aprovada.


Para Mariana Tikuna, preservar essa herança significa garantir que futuras gerações tenham acesso a conhecimentos que ajudaram a formar a identidade cultural amazônica.

Ciência e ancestralidade caminhando juntas

Um dos diferenciais do projeto está justamente na trajetória de sua idealizadora.


Indígena do povo Tikuna, Mariana reúne uma formação acadêmica de excelência com uma profunda inserção nos saberes tradicionais.


Ela é doutora em Ecologia Aquática e Pesca pela Universidade Federal do Pará (UFPA), doutoranda em Antropologia, geógrafa e atua há mais de 17 anos junto a povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas da Amazônia.


Foi aprendiz da paje Roxita tendo herdado seu primeiro barracão de trabalho, onde dá continuidade ao seu legado, na pajelança cabocla.


Essa combinação entre conhecimento científico e tradição ancestral aparece como uma das marcas centrais do Jardim dos Encantados.

Um complexo cultural no coração do Marajó

O projeto prevê a implantação de diversas estruturas voltadas à preservação e transmissão dos conhecimentos tradicionais. Entre elas estão a construção de um Tapiri para cerimônias e atividades culturais, o Poço da Sucuri, inspirado na Cosmologia marajoara, um redário comunitário, trilhas etnobotânicas e um Jardim Sensorial com 35 espécies medicinais e sagradas catalogadas cientificamente.


Também estão previstas oito vivências imersivas abertas ao público, encontros de formação de novos guardiões da tradição, produção de livros, cartilhas, acervo digital e a criação do Museu Itinerante da Pajelança Viva Marajoara.


A proposta inclui ainda atividades em municípios do Marajó e em universidades públicas paraenses, ampliando o diálogo entre cultura popular, educação e pesquisa acadêmica.

Impacto social e cultural

A expectativa é atender diretamente cerca de 780 pessoas e alcançar mais de 5 mil por meio de publicações, ações educativas e redes sociais. O projeto também prevê a geração de empregos diretos e indiretos, fortalecendo a economia local e valorizando profissionais ligados à cultura tradicional amazônica.


Para pesquisadores da área cultural, iniciativas como essa representam um contraponto ao apagamento histórico sofrido por diversos saberes tradicionais da Amazônia.


Em vez de tratar a cultura indígena e cabocla como elemento folclórico, o Jardim dos Encantados propõe reconhecê-la como conhecimento vivo, capaz de dialogar com a ciência, a educação e os desafios contemporâneos.

Um legado para o futuro

Em tempos de avanço da destruição ambiental, da mercantilização dos territórios e da perda acelerada de referências culturais, o projeto de Mariana Tikuna se apresenta como uma experiência concreta de resistência.


Ao unir espiritualidade, cultura, pesquisa e preservação ambiental, o Jardim dos Encantados reafirma que a Amazônia não é apenas um conjunto de recursos naturais.


Ela é também território de memória, de conhecimento e de povos que continuam produzindo cultura, ciência e formas próprias de compreender o mundo.


E é justamente por isso que iniciativas como esta merecem ser celebradas.

Como apoiar o projeto

Empresas interessadas em associar sua marca à preservação da cultura amazônica têm uma oportunidade concreta de contribuir com o projeto Jardim dos Encantados por meio da Lei Semear, mecanismo de incentivo cultural do Governo do Pará que permite o direcionamento de até 95% do ICMS devido para projetos aprovados pela Fundação Cultural do Pará.

Na prática, o investimento possui baixo custo real para a empresa e gera retorno institucional, social e cultural. Além dos benefícios fiscais previstos na legislação, os patrocinadores passam a ter suas marcas vinculadas a uma iniciativa de relevância histórica para a salvaguarda da Pajelança Cabocla Marajoara, patrimônio imaterial da Amazônia.


Em um cenário em que a responsabilidade socioambiental e o respeito aos povos e comunidades tradicionais ganham cada vez mais importância, apoiar o Jardim dos Encantados significa investir na preservação da memória, da diversidade cultural e dos conhecimentos ancestrais que ajudam a construir a identidade amazônica.


Empresas, instituições e apoiadores interessados podem entrar em contato diretamente com a proponente do projeto para conhecer as modalidades de patrocínio e apoio cultural disponíveis.

  • Imagens: Nailane Thiely

(*) MESTRA ROXITA: GUARDIÃ DOS SABERES DA AMAZÔNIA



Ao mencionar a Mestra Roxita ao longo desta reportagem, o Portal Info.Revolução presta homenagem a uma das mais importantes guardiãs dos saberes tradicionais da Amazônia.


Mestra Roxita, nome pelo qual era conhecida Irandilva Miranda Dantas, nasceu em Soure, no arquipélago do Marajó, em 1951. Reconhecida por seu profundo conhecimento da pajelança cabocla marajoara, das plantas medicinais e das práticas tradicionais de cura, dedicou sua vida à preservação e transmissão de conhecimentos ancestrais construídos ao longo de gerações por povos indígenas, caboclos e comunidades tradicionais da região.


Sua atuação ultrapassou o campo espiritual, tornando-se uma referência cultural para o Pará e para a Amazônia. Ao longo de décadas, acolheu pessoas, formou aprendizes e contribuiu para manter viva uma tradição que faz parte do patrimônio imaterial do povo marajoara.


Mestra Roxita faleceu em maio de 2026, deixando um legado marcado pela resistência cultural, pela valorização dos saberes da floresta e pela defesa da memória dos povos amazônicos.


Seu nome permanece associado à luta pela preservação da Pajelança Cabocla Marajoara e à continuidade de conhecimentos que seguem inspirando novas gerações de pesquisadores, mestres da cultura popular e guardiões das tradições amazônicas.

 

 

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