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MPF recomenda anulação de audiência sobre aterro no Acará (PA)

  • 3 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 4 de mar.

Órgão aponta violência policial, exclusão de comunidades quilombolas e falhas graves no estudo ambiental da CTR Metropolitana Acará


Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou à Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas) a anulação imediata da audiência pública realizada em 20 de fevereiro, no municpipio do Acará (PA), que discutiu o licenciamento da Central de Tratamento de Resíduos (CTR) Metropolitana Acará, empreendimento da empresa Ciclus Amazônia. O órgão também orientou a suspensão da emissão de qualquer Licença Prévia (LP) até que irregularidades técnicas e sociais sejam sanadas.

 

A recomendação, assinada por procuradores do Grupo de Apoio ao Núcleo Povos da Floresta, do Campo e das Águas, estabelece prazo de dez dias para que Semas e empresa informem formalmente se acatarão as medidas. O MPF alerta que o descumprimento poderá resultar em ação civil pública.

 

Violência e restrição à participação

 

Segundo o MPF, a audiência foi marcada por tumulto generalizado, cerceamento da participação popular e uso desproporcional de força policial, incluindo balas de borracha e spray de pimenta contra manifestantes, quilombolas, ribeirinhos e agricultores.

 

Relatos e registros apontam que o acesso ao ginásio onde ocorreu o evento foi bloqueado por barreiras policiais e por cerca de 200 agentes de segurança privada contratados pela própria empresa. Também houve denúncias de revistas abusivas e exigência de assinatura compulsória em listas de presença. A sessão foi encerrada antes do previsto, sem a composição adequada da mesa e sem o debate técnico necessário.

 

O MPF também questionou o fato de a audiência ter sido realizada a cerca de 100 quilômetros da área diretamente afetada, no Baixo Acará, sem oferta de transporte à população local — o que, segundo o órgão, configurou barreira geográfica à participação.


Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais

 

Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais

Estudos ambientais sob suspeita

 

Além das irregularidades na condução da audiência, o MPF identificou falhas estruturais no Estudo de Impacto Ambiental e no Relatório de Impacto Ambiental (Eia/Rima) apresentados pela Ciclus Amazônia. 

De acordo com a recomendação, os estudos utilizaram dados defasados de 2015 e omitiram mais de 25 comunidades quilombolas e tradicionais situadas na área de influência do empreendimento — o que o órgão classificou como “apagamento institucional”.

 Outra divergência envolve os recursos hídricos. Enquanto a empresa apontou a existência de 14 nascentes na região, perícias e fiscalizações identificaram 87 nascentes vulneráveis à contaminação por chorume, algumas a menos de 70 metros da área diretamente afetada. O corpo técnico da Secretaria de Meio Ambiente do Acará concluiu que o projeto apresenta “intensas fragilidades”.

 

Consulta prévia obrigatória

 

O MPF reforçou que qualquer avanço no licenciamento depende da realização da Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) às comunidades tradicionais, conforme estabelece a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro.

 

Entre as medidas recomendadas estão:

 

  • Anulação da audiência realizada sob coerção;

  • Proibição de terceirização do controle de acesso a audiências públicas;

  • Suspensão da Licença Prévia até conclusão da CPLI;

  • Atualização integral do Eia/Rima com dados primários recentes;

  • Mapeamento de todas as comunidades impactadas;

  • Nova audiência pública em local acessível e com transporte gratuito;

  • Proibição de uso de forças coercitivas contra manifestantes;

  • Disponibilização do novo Rima com antecedência mínima de 45 dias;

  • Prospecção arqueológica para proteger patrimônio cultural quilombola.

 

Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Moradores do Acará (PA) atribuem episódios de violência policial e de milícias privadas (seguranças da Empresa Ciclus) à pressão sobre o território para instalar aterro sanitário. A comunidade exige providências por parte dos órgãos de controle e fiscalização e o fim da repressão - Imagem: Reprodução / Redes Sociais

O que está em jogo

 

O empreendimento prevê a instalação de uma central para tratamento de resíduos sólidos que atenderia à Região Metropolitana de Belém. Organizações sociais e lideranças comunitárias argumentam que o projeto pode gerar impactos ambientais e sociais significativos, especialmente sobre comunidades tradicionais e recursos hídricos estratégicos.

 

Para o MPF, a condução do processo até aqui apresenta vícios que comprometem a legalidade do licenciamento e exigem correção imediata.

 

Instrumento preventivo

 

Recomendações do Ministério Público são instrumentos formais de orientação jurídica destinados a prevenir danos e evitar responsabilizações futuras. Caso não sejam atendidas, podem resultar em medidas judiciais.

 

A controvérsia em torno da CTR Metropolitana Acará amplia o debate sobre modelo de gestão de resíduos, participação popular e proteção socioambiental no Pará — estado que concentra parte significativa dos territórios tradicionais e recursos hídricos estratégicos da Amazônia.


ENTENDA O CASO

MPF recomenda anulação de audiência sobre aterro no Acará

 

  • O que motivou a intervenção do MPF

A audiência pública realizada em 20 de fevereiro, no Acará (PA), para discutir o licenciamento da Central de Tratamento de Resíduos (CTR) Metropolitana Acará foi marcada por tumulto, denúncias de violência policial e restrição à participação popular.

 

  • O que o MPF identificou como irregularidades

O órgão apontou uso desproporcional de força contra manifestantes, barreiras policiais que impediram a entrada de moradores, presença de segurança privada contratada pela empresa e encerramento antecipado da sessão sem debate técnico adequado.

 

  • Quais falhas foram encontradas nos estudos ambientais

O Estudo de Impacto Ambiental (Eia/Rima) utilizou dados de 2015 e teria omitido mais de 25 comunidades quilombolas e tradicionais da área de influência. Também houve divergência grave sobre recursos hídricos: a empresa apontou 14 nascentes, enquanto laudos identificaram 87, algumas muito próximas da área afetada.

 

  • O que o MPF determinou

Recomendou a anulação imediata da audiência, suspensão da Licença Prévia e paralisação do processo até que seja realizada a Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), conforme a Convenção 169 da OIT. Também exigiu atualização completa dos estudos ambientais.

 

  • O que pode acontecer agora

Semas e Ciclus Amazônia têm dez dias para informar se acatam a recomendação. Caso contrário, o MPF pode ingressar com Ação Civil Pública para judicializar o caso.


Fonte: MPF


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