A disputa pela chave do cofre
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No Brasil, o debate político raramente gira em torno de projetos de país. O centro da disputa é outro: quem controla o cofre. A retórica muda conforme o palanque, mas o jogo permanece o mesmo. Ultra direita, extrema direita, esquerda e lulismo travam uma guerra pública que, nos bastidores, revela convergências desconfortáveis, especialmente quando o assunto envolve grandes interesses econômicos.
A direita grita “Estado mínimo”, mas não abre mão de incentivos, subsídios e benesses quando o capital bate à porta. A extrema direita performa um nacionalismo seletivo, que protege símbolos, mas entrega territórios, bens comuns e políticas públicas ao mercado. Até aqui, nenhuma novidade. O problema começa quando olhamos para quem prometeu ser diferente.
A esquerda brasileira, especialmente o lulismo, construiu sua legitimidade recente sobre dois pilares discursivos: a defesa da democracia e a preservação da Amazônia. O discurso é forte, sedutor e internacionalmente aplaudido. Mas, na prática, o que se vê é a continuidade — e em alguns casos o aprofundamento — de uma lógica que transforma a floresta em ativo econômico e os povos amazônicos em obstáculos administrativos.
Leis, decretos e rearranjos institucionais passam com pouca resistência no Congresso, muitas vezes com o apoio silencioso, ou explícito, de setores que se dizem oposição entre si. O decreto federal 12.600/2025, que inclui importantes rios amazônicos — como o Tapajós, Madeira e Tocantins, no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho para concessões privadas, dragagens, uso intensivo e “modernização” dos rios para facilitar o escoamento de grãos exportáveis — ilustra bem essa contradição: projetos que avançam sob a justificativa do “desenvolvimento”, da “modernização” ou da “segurança jurídica”, mas que, na ponta, flexibilizam regras, enfraquecem a proteção ambiental e abrem brechas para a exploração predatória. A direita vota sem constrangimento. A esquerda vota tentando explicar depois.
É nesse ponto que a narrativa se rompe. Porque quem prometeu proteger a Amazônia não pode governar como se ela fosse apenas um recurso estratégico. Não basta mudar o tom do discurso se o conteúdo das políticas permanece alinhado à lógica da destruição legalizada. Quando a devastação vem carimbada por leis, ela deixa de ser ilegal, mas não deixa de ser violenta.
A disputa ideológica que ocupa as redes sociais funciona como cortina de fumaça. Enquanto militâncias brigam, o cofre é aberto. E quando se trata de grandes projetos, infraestrutura, mineração, agronegócio e financeirização da natureza, os supostos antagonistas descobrem que têm muito mais em comum do que admitem em público.
Este não é um texto de defesa da direita, nem de ataque gratuito à esquerda. É um chamado à coerência. Porque decepciona menos quem nunca prometeu nada do que quem fez da esperança um programa de governo. A extrema direita é previsível em sua brutalidade. A esquerda, quando governa negando o próprio discurso, produz algo talvez mais perigoso: a normalização da contradição.
A Amazônia não precisa de discursos em conferências internacionais enquanto leis internas avançam silenciosamente contra ela. Não precisa ser moeda de troca na disputa pela chave do cofre. Precisa ser tratada como território de vida, de povos, de direitos, e não como um ativo negociável conforme a conveniência política do momento.
No fim das contas, o problema do Brasil talvez não seja apenas quem governa, mas o consenso não declarado sobre o que pode ser sacrificado para manter o poder. E, nesse acordo tácito, a floresta segue perdendo, com aplausos à direita e justificativas à esquerda.

















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