A Farsa do Quinto Constitucional: Disputa de Fachada, Dono Definido
- contatoinforevollu
- 27 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Chamam de Quinto Constitucional. Mas, para quem assiste de fora do camarote, ou melhor, do balcão, o nome mais honesto seria Quintos dos Infernos. Porque, quando a vaga de desembargador é anunciada à advocacia, não se abre um processo democrático: inaugura-se um espetáculo de cinismo institucional, vaidades infladas e acordos que jamais sobreviveriam à luz do dia.
A OAB anuncia a vaga como se fosse da advocacia, mas administra o processo como se fosse propriedade privada de um clube muito seleto. Um clube onde o sobrenome pesa mais que a Constituição, o networking vale mais que a trajetória profissional, e a origem social define, silenciosamente, quem pode sonhar, e quem deve apenas votar e calar.
Nos bastidores do Quinto, vale tudo. Maquiavel não apenas é lido, é praticado com devoção. Se você não pertence ao grupo certo, se ousa questionar o jogo, se ameaça fazer o sistema tremer, ainda que com argumentos jurídicos e trajetória limpa, a resposta vem rápida: perseguição, isolamento, processos éticos oportunamente acionados, convites “irrecusáveis” para sair de cena. Tudo muito elegante. Tudo muito institucional. Tudo muito sujo.
A OAB gosta de repetir que representa toda a advocacia. Representa mesmo? Ou representa a advocacia branca, rica, urbana, herdeira de escritórios, títulos e sobrenomes? Porque quem decide, no papel, são os milhares de advogados e advogadas que ganham menos de cinco mil reais por mês, que atuam no interior, que sustentam a instituição com anuidades pagas com sacrifício. A advocacia de base. A advocacia que rala. A advocacia pobre.
Mas essa advocacia só serve para uma coisa: ser massa de manobra.
Quando um advogado indígena, negro, periférico, deficiente, cigano ou simplesmente pobre resolve disputar espaços que o sistema julga “nobres demais”, o incômodo é imediato. O recado é claro: “este lugar não é para você”. A democracia interna da OAB tem CEP, cor, classe e sobrenome.
E não nos enganemos: muitos dos chamados “adversários do sistema” já não o são. Tornaram-se extensões dele. O verdadeiro antagonismo foi expulso, não por acaso, mas por método. O sistema trata de eliminar ainda no ninho aqueles que, no futuro, poderiam questionar seus privilégios. O ideal de uma advocacia plural, justa, constitucional e verdadeiramente representativa virou peça de museu. Utopia incômoda demais para quem lucra com o status quo.
O recente adiamento, ou melhor, cancelamento estratégico, da votação do Quinto Constitucional marcada para 19 de dezembro não engana ninguém. É apenas mais uma jogada previsível: espera-se a troca de cadeiras no Executivo para que a indicação final saia exatamente como deseja o clube do bolinha jurídico. Todos sabem. Todos veem. Fingem não ver.
E, enquanto isso, a mensagem à advocacia de base já foi enviada, sem rodeios: vocês votam, nós decidimos. Vocês sustentam, nós escolhemos. Vocês legitimam, nós governamos.
Mas há algo que o sistema insiste em esquecer: a lista tríplice nasce do voto da advocacia. Não da cúpula. Não dos bastidores. Não dos conchavos. Nasce das mãos calejadas de quem nunca sentou à mesa da hipocrisia, mas conhece, como ninguém, o peso real da toga que tanto disputam.
A pergunta que fica não é sobre quem ocupará a vaga.A pergunta é se a advocacia amazonense continuará aceitando ser usada, ou se, finalmente, decidirá lembrar quem realmente tem o poder.
Porque, no fim das contas, o Quinto só existe porque nós existimos. E isso, por mais que o sistema odeie admitir, ainda faz toda a diferença.



















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