Janeiros e Fevereiros de resistência: o protagonismo das Mulheres Indígenas
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Janeiro e fevereiro já não são apenas meses de início de ano. Tornaram-se, nos últimos dois ciclos, meses de memória e virada política. Em jan/fev de 2025, a mobilização indígena sacudiu o Pará, ocupou as redes sociais, pressionou as instituições e levou à revogação da Lei Estadual 10.820/2024, que alterava o SOME e o Sistema de Organização Modular de Ensino Indígena (SOMEI) — conhecida como a lei da “educação televisionada”, que pretendia impor um modelo distante das realidades culturais e territoriais dos povos originários.
Em jan/fev de 2026, novamente as ruas, os rios e as aldeias ecoaram resistência diante do Decreto 12.600/2025 do governo federal, que abria brechas perigosas para a privatização e mercantilização dos rios amazônicos.
Coincidência? Não. História sendo escrita por quem sempre foi empurrado para as margens.
A revogação da lei no Pará não foi um gesto de benevolência do Estado. Foi resultado de pressão organizada, presença física, denúncia internacional e enfrentamento direto ao governo de Helder Barbalho. O que se viu foi um governo acuado pela força legítima de povos que não aceitam mais decisões tomadas sobre seus territórios sem consulta, diálogo e respeito.
A chamada “educação televisionada” não era apenas uma mudança metodológica. Era a padronização que ignora línguas, saberes tradicionais, calendários próprios e a pedagogia da floresta. Era a tentativa de transformar diversidade em grade curricular homogênea. A resposta foi clara: educação indígena não se negocia sem os indígenas.
Já em 2026, o enfrentamento ao Decreto 12.600 expôs outra dimensão do conflito: a disputa pelos bens comuns. Os rios da Amazônia não são “ativos logísticos”. São territórios vivos, sagrados, fonte de alimento, mobilidade, espiritualidade e identidade. Qualquer medida que abra caminho para concessões indiscriminadas ou controle privado sobre essas águas fere o princípio constitucional dos direitos originários e ameaça a soberania socioambiental do país.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que carrega histórico de diálogo com movimentos sociais, sentiu o peso da contradição. Não há projeto progressista que sobreviva se ignorar a centralidade dos povos originários na defesa da Amazônia. A reação rápida e a pressão organizada mostraram que não existe mais espaço para decisões tecnocráticas sobre territórios ancestrais.
Mas há um elemento que atravessa essas duas vitórias e merece ser destacado com todas as letras: a liderança das mulheres indígenas. Mulheres que carregam o território no corpo e na palavra.
Nomes como Alessandra Korap Munduruku e Auricelia Arapiuns não são apenas referências simbólicas. São vozes que articulam território, denúncia, estratégia política e comunicação. Elas falam com o Brasil e com o mundo sem abandonar a aldeia. Enfrentam governadores, ministros e corporações com a firmeza de quem defende não um mandato, mas um modo de existir.
Alessandra Korap Munduruku: o rio como trincheira
Alessandra é do povo Munduruku, do Médio Tapajós, no Pará. Sua trajetória está profundamente ligada à defesa do rio Tapajós contra projetos de grandes hidrelétricas e contra o avanço do garimpo ilegal.
Mas sua luta não começa nos gabinetes — começa na experiência cotidiana de ver o rio adoecer. O mercúrio que contamina, o peixe que escasseia, a violência que chega junto com o ouro ilegal. A defesa ambiental, para ela, nunca foi discurso abstrato: é defesa da vida concreta.
Ao longo dos últimos anos, Alessandra se destacou nacional e internacionalmente por denunciar os impactos de megaprojetos na Amazônia. Recebeu reconhecimento fora do Brasil, mas dentro do país enfrentou ameaças constantes. E mesmo sob risco, não recuou.
Durante a mobilização contra a lei da “educação televisionada”, sua postura foi evidente: não se pode impor um modelo pedagógico que desconsidera a diversidade cultural dos povos indígenas. Educação, para ela, é autonomia — não transmissão padronizada de conteúdo.
Já diante das ameaças aos rios amazônicos, sua fala ganha outra dimensão: “o rio não é recurso, é parente”. Essa cosmologia confronta diretamente a lógica privatista que transforma água em ativo econômico.
Alessandra representa uma geração de mulheres indígenas que articulam ancestralidade e estratégia política contemporânea com impressionante lucidez.
Auricelia Arapiuns: organização como resistência
Auricelia Arapiuns é liderança do povo Arapiuns, no oeste do Pará, região marcada por conflitos fundiários, pressão do agronegócio e disputas territoriais históricas.
Sua trajetória é marcada pela organização comunitária. Diferentemente da imagem estereotipada de liderança individual heroica, Auricelia constrói força coletiva: associações, redes de mulheres, articulações interétnicas.
Ela atua na defesa do território, na luta pela demarcação e no fortalecimento da identidade cultural. Sua voz se destaca na denúncia contra invasões, grilagem e projetos que ameaçam os modos de vida tradicionais.
Nas mobilizações de 2025 e 2026, sua presença foi estratégica na articulação entre diferentes povos. Não se tratava apenas de protesto, mas de construção de unidade política.
Auricelia também representa algo crucial: a liderança feminina que emerge das bases, do cotidiano das aldeias, da organização silenciosa que sustenta grandes atos públicos.
A política que nasce da floresta
Há algo que os gabinetes ainda demoram a entender: quando mulheres indígenas se levantam, não falam apenas como indivíduos. Falam como extensão do território.
A luta contra a “educação televisionada” não era só sobre metodologia pedagógica. Era sobre autonomia cultural. A resistência ao decreto que ameaçava os rios não era só sobre gestão hídrica. Era sobre soberania territorial.
E nessas duas frentes, a atuação das mulheres demonstrou que a Amazônia tem voz própria, e essa voz é feminina, estratégica e profundamente política.
Há algo profundamente transformador quando mulheres indígenas assumem a linha de frente. Rompe-se a narrativa colonial que sempre tentou infantilizar, silenciar ou tutelar os povos originários. Rompe-se também o machismo estrutural que insiste em subestimar a liderança feminina. Nessas mobilizações, elas não foram coadjuvantes. Foram estrategistas, articuladoras e símbolo de resistência.
Esses dois episódios ensinam uma lição incômoda para quem governa: a Amazônia não é um vazio administrativo. É território político. E seus povos sabem se mobilizar, sabem comunicar e sabem pressionar.
Se janeiro e fevereiro se tornaram meses de mobilização histórica, é porque a floresta aprendeu a falar alto. E tem falado na voz das suas mulheres.













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