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Belém afunda entre a chuva, o concreto e o abandono

  • há 54 minutos
  • 3 min de leitura

Por Douglas Diniz – Repórter Sem Fronteiras (RSF)


A forte chuva que atingiu Belém nesta terça-feira (05) não apenas alagou ruas, canais e bairros da capital paraense. Ela expôs o fracasso de um modelo de cidade baseado no improviso, no marketing político e em obras que priorizam aparência e impacto visual, enquanto ignoram completamente a dinâmica ambiental da Amazônia.


O problema não é apenas o inverno amazônico. O problema é uma cidade historicamente abandonada por sucessivas gestões públicas, agravada agora por um modelo de urbanização que transforma concreto e asfalto em símbolos de modernização, sem considerar os impactos ambientais e sociais dessas escolhas.

As obras relacionadas à preparação de Belém para a COP 30 foram vendidas como um marco de desenvolvimento urbano. Na prática, grande parte desse chamado “legado” tem significado mais impermeabilização do solo, maior pressão sobre o sistema de drenagem e menos capacidade da cidade de absorver a água das chuvas.

Ao substituir áreas de infiltração por extensas camadas de concreto e asfalto convencional, o poder público acelera o escoamento superficial da água. A chuva deixa de penetrar no solo e passa a correr violentamente pelas vias, baixadas e canais, ampliando os alagamentos em bairros populares e aprofundando uma crise urbana que já era conhecida muito antes da COP 30.


Belém é uma cidade cercada por rios, furos e igarapés. Foi construída sobre áreas alagadiças e depende diretamente do equilíbrio entre ocupação urbana e drenagem natural. Ainda assim, segue sendo planejada como se estivesse distante da realidade amazônica.


Enquanto bilhões são investidos em corredores viários, intervenções urbanísticas e obras voltadas para impacto visual e propaganda institucional, pouco se debate sobre soluções estruturais modernas para enfrentar as enchentes urbanas.


Entre elas estão os chamados reservatórios de detenção, conhecidos popularmente como “piscinões”. Essas estruturas funcionam como pulmões hidráulicos urbanos, armazenando temporariamente grandes volumes de água durante os temporais para reduzir o pico das cheias e evitar o colapso da drenagem.


Escola Palmira Gabriel - Imagens: Redes Sociais


Da mesma forma, tecnologias já amplamente utilizadas em diversas cidades do mundo seguem praticamente ausentes das grandes obras realizadas na capital paraense. O asfalto permeável, o concreto poroso e os blocos intertravados permeáveis permitem pavimentar áreas urbanas sem impedir a infiltração da água no solo, reduzindo significativamente os impactos das chuvas intensas.


Além de diminuir os alagamentos, essas soluções ajudam na recarga do lençol freático, reduzem ilhas de calor e tornam a cidade mais adaptada às mudanças climáticas. Mas, em Belém, seguem ignoradas em nome de um modelo urbano ultrapassado e profundamente dependente do concreto armado.

A crise vivida pela população durante os temporais não pode mais ser tratada como fatalidade climática. Trata-se da consequência direta de escolhas políticas, prioridades econômicas e ausência de planejamento ambiental de longo prazo.

Em poucas horas de chuva, ruas transformaram-se em rios, famílias perderam móveis e eletrodomésticos, comerciantes acumularam prejuízos e trabalhadores enfrentaram dificuldades para retornar para casa. Mais uma vez, quem paga a conta da precariedade urbana é o povo pobre das periferias.


Enquanto a população enfrenta lama, esgoto e abandono, a gestão municipal insiste em construir uma realidade paralela nas redes sociais. A propaganda institucional vende uma cidade moderna e preparada para o mundo, mas os bairros populares revelam outra Belém: uma cidade vulnerável, desigual e incapaz de enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos.


A gestão do prefeito Igor Normando (MDB) precisa abandonar a lógica do marketing político e enfrentar o debate sério sobre drenagem, saneamento, ocupação do solo e adaptação climática. Secretários municipais parecem mais preocupados em produzir vídeos para a internet e “lacrar” nas redes sociais do que em apresentar soluções permanentes para problemas históricos da capital.


A população começa a demonstrar sinais claros de esgotamento. Em diversos bairros, moradores, lideranças comunitárias e trabalhadores já discutem formas de mobilização para cobrar providências concretas do poder público.

Cresce o sentimento de que não é mais possível aceitar que toda chuva forte represente ameaça, prejuízo e sofrimento.


A conclusão que começa a ecoar entre a população pobre nas ruas da cidade é inevitável: o legado deixado pelas obras da COP 30 foi uma Belém ainda mais impermeabilizada, desigual e vulnerável.


Porque o que caiu sobre Belém no dia 05 de maio não foi apenas chuva. Caiu também a máscara de um modelo político defendido pelo ex-governador Helder Barbalho, pelo prefeito Igor Normando e por setores da elite política paraense que insistem em construir uma cidade incapaz de conviver com a própria natureza amazônica.


(Matéria em atualização)


 


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