INDÍGENAS BLOQUEIAM RODOVIA NO PARAGUAI PARA DENUNCIAR DEVASTAÇÃO DE TERRITÓRIO AYOREO
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Protesto reúne mais de 100 indígenas e expõe avanço do agronegócio sobre a última área habitada por povos isolados fora da Amazônia
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Mais de cem indígenas do povo Ayoreo Totobiegosode bloquearam uma importante rodovia no oeste do Paraguai para denunciar a destruição acelerada de seu território ancestral. O protesto chama atenção internacional para o avanço do agronegócio sobre uma das últimas áreas de floresta que ainda abriga parentes indígenas isolados — considerados o último povo isolado da América do Sul fora da Amazônia.
A mobilização ocorre em meio a denúncias de devastação acelerada da floresta no Chaco paraguaio, região onde escavadeiras, queimadas e a expansão de fazendas de gado vêm reduzindo drasticamente o território tradicional dos Ayoreo.
Segundo a liderança indígena Porai Picanerai, o bloqueio da estrada é uma resposta direta ao abandono estatal e à destruição contínua da floresta que sustenta a sobrevivência de seu povo.
“Após o contato forçado, fomos abandonados pelo nosso governo, que ignora nossos direitos enquanto permite que grandes empresas destruam a nossa floresta. Nossos parentes isolados dependem da floresta. Nós também dependemos dela. Mas ela está sendo destruída por escavadoras e queimadas”, denunciou.
Um povo cercado pela devastação
Grande parte dos Ayoreo Totobiegosode foi submetida a processos de contato forçado entre 1979 e 2004. Desde então, muitos foram removidos de suas áreas tradicionais e hoje vivem em duas comunidades remotas, enfrentando precariedade, falta de assistência médica e dificuldades de acesso a água e alimentos.
Enquanto isso, grupos do mesmo povo que permaneceram isolados continuam vivendo em uma pequena “ilha” de floresta cada vez mais cercada pela devastação provocada pelo avanço de fazendas e empreendimentos agropecuários.
De acordo com organizações de defesa dos povos indígenas, a região do Chaco paraguaio registra uma das taxas de desmatamento mais rápidas do planeta, transformando áreas que antes eram florestas densas em extensos pastos para criação de gado.
Direitos ignorados
Os manifestantes denunciam que o território tradicional dos Ayoreo possui direito legal à proteção, mas continua sendo invadido por fazendas e empreendimentos agropecuários.
Além disso, o governo do Paraguai segue sem cumprir uma decisão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que determinou o reconhecimento e a titulação da terra em favor do povo Ayoreo.
Para os indígenas, a demora em garantir esse direito representa uma ameaça direta à sobrevivência física e cultural do povo.
Pressão internacional
A diretora da organização de defesa dos povos indígenas Survival International, Caroline Pearce, afirma que imagens de satélite revelam a dimensão da destruição no território tradicional dos Ayoreo.
Segundo ela, o cenário atual mostra uma região que, poucas décadas atrás, era coberta por vastas florestas e hoje apresenta áreas devastadas e ocupadas por fazendas.
“Os Ayoreo isolados estão presos em uma pequena ilha de floresta que está sendo destruída a cada dia. Toda essa devastação é ilegal. Essa terra já deveria ter sido reconhecida oficialmente como território indígena”, afirmou.
Pearce também destacou que os grupos isolados provavelmente estão sendo obrigados a se deslocar constantemente dentro da floresta para escapar do avanço das fazendas e das máquinas.
Agronegócio sob pressão
A crescente pressão internacional sobre empresas ligadas à cadeia do couro também começa a afetar o debate sobre a devastação no Chaco.
Em 2023, a fabricante europeia de couro Pasubio anunciou que deixará de comprar couro de fornecedores envolvidos direta ou indiretamente com a destruição das florestas habitadas pelos Ayoreo.
A decisão ocorreu após denúncias e diálogo com a Survival International, que apresentou uma queixa formal baseada nas diretrizes da OCDE para empresas multinacionais.
Resistência pela sobrevivência
Para organizações indígenas e ambientalistas, a situação do povo Ayoreo simboliza um conflito cada vez mais frequente na América do Sul: a expansão agressiva do agronegócio sobre territórios tradicionais e áreas de floresta.
No caso dos Ayoreo Totobiegosode, a disputa envolve não apenas a terra, mas a sobrevivência de um dos últimos povos indígenas isolados do continente.
Enquanto o governo paraguaio mantém silêncio diante das denúncias, os indígenas prometem continuar a mobilização.
Para eles, a estrada bloqueada é mais do que um protesto: é um alerta de que, sem a proteção do território, um povo inteiro pode desaparecer.
Fonte: SurvivalBrasil
(Matéria em atualização)
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FRONTEIRAS DE RESISTÊNCIA: A LUTA GLOBAL DOS POVOS INDÍGENAS ISOLADOS - SURVIVAL INTERNACIONAL
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