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O silêncio coletivo também é uma forma de violência

  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

 

Imagem: Redes Sociais
Imagem: Redes Sociais

O vídeo é curto, mas o impacto é profundo. As imagens que circularam nas redes sociais mostram uma mulher sendo agredida pelo próprio companheiro na comunidade São Pedro, zona rural de Óbidos, no oeste do Pará. A agressão acontece diante do próprio filho, uma criança, que presencia uma cena que nenhuma infância deveria carregar na memória.


Não é apenas um episódio isolado. É o retrato doloroso de uma violência que ainda atravessa muitas casas, muitas comunidades e muitas vidas.

O que torna o caso ainda mais simbólico é que ele só ganhou repercussão porque alguém gravou. Quantas outras violências permanecem invisíveis? Quantas mulheres sofrem em silêncio, longe das câmeras, longe das redes sociais, longe de qualquer possibilidade de socorro?

Mas há um detalhe nas imagens que também provoca indignação. Enquanto a mulher é agredida, várias pessoas aparecem ao redor observando a cena. Curiosos assistem, comentam, olham — mas ninguém intervém para defender a vítima ou interromper a agressão. Esse silêncio coletivo também é uma forma de violência. Porque quando uma mulher apanha em público e a reação predominante é apenas assistir, a mensagem que se transmite é de que aquilo pode continuar acontecendo.


Depois que o vídeo viralizou, a própria vítima pediu para que as pessoas parassem de compartilhar as imagens. E esse pedido também revela muito sobre a complexidade da violência contra a mulher. Talvez por medo. Talvez por vergonha. Talvez pela tentativa de proteger o filho de carregar para sempre a exposição pública de um momento tão doloroso.


A violência doméstica tem muitas camadas. Ela não termina quando a agressão acaba. Ela continua no constrangimento, no julgamento público, na pressão social e, muitas vezes, na solidão da vítima.


É importante denunciar a violência. É necessário responsabilizar quem agride. Mas também é preciso lembrar que por trás de cada vídeo que viraliza existe uma vida real, uma mulher que precisa de proteção, acolhimento e dignidade — não apenas de exposição.


Outro detalhe que não pode passar despercebido é a presença da criança. Quando um filho assiste a uma agressão dentro da própria família, ele também se torna vítima. A violência ultrapassa o corpo de quem apanha e atinge a formação emocional de quem presencia.


O episódio ocorrido na comunidade São Pedro nos lembra de algo fundamental: a violência contra a mulher não é um problema distante, urbano ou raro. Ela também está nas áreas rurais, nas pequenas comunidades, nos lugares onde muitas vezes o silêncio pesa mais que a denúncia.


Combater essa realidade exige mais do que indignação momentânea. Exige redes de proteção, informação, coragem para denunciar e, principalmente, uma mudança cultural que deixe claro que nenhuma mulher deve ser tratada com violência — em casa, na rua ou em qualquer lugar.


Porque nenhuma comunidade pode considerar normal aquilo que destrói a dignidade de uma mulher e marca para sempre a memória de uma criança.

 

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