Quase metade das crianças do mundo enfrenta múltiplas ameaças climáticas; no Brasil, 16 milhões vivem sob três ou mais riscos, alerta UNICEF
- há 1 dia
- 4 min de leitura
Novo relatório revela que mudanças climáticas já comprometem saúde, educação e sobrevivência de bilhões de crianças; organismo cobra redução das emissões e investimentos urgentes em proteção social
E-mail: contato@inforevolucao.com
A crise climática deixou de ser uma ameaça futura e passou a definir o cotidiano de milhões de crianças em todo o planeta. Relatório divulgado pelo UNICEF revela que cerca de 1,1 bilhão de crianças e adolescentes, praticamente metade da população infantil mundial, está exposta simultaneamente a pelo menos três ameaças climáticas, como ondas de calor, secas, enchentes, queimadas e tempestades.
No Brasil, o cenário também preocupa. Segundo o Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, aproximadamente 16 milhões de crianças e adolescentes, o equivalente a três em cada dez, convivem diariamente com três ou mais riscos climáticos. Quando considerados dois ou mais perigos simultâneos, esse número ultrapassa 30 milhões, atingindo cerca de 60% da população infantil brasileira.
O levantamento mostra que praticamente nenhuma criança está totalmente protegida dos efeitos das mudanças climáticas. Quase todas enfrentam ao menos um risco ambiental, enquanto mais de 4 milhões de crianças no mundo vivem sob a ameaça simultânea de até seis eventos climáticos extremos.
Calor, secas e incêndios redefinem a infância
O estudo identifica oito grandes ameaças climáticas responsáveis por afetar diretamente a infância: calor extremo, ondas de calor, secas, queimadas, enchentes fluviais, enchentes costeiras, tempestades tropicais e tempestades de areia e poeira.
A combinação mais frequente é formada por seca, calor extremo e ondas de calor, atingindo mais de 296 milhões de crianças em todo o planeta. Outro grupo de mais de 115 milhões convive simultaneamente com secas, calor extremo e tempestades tropicais.
Para o UNICEF, esses fenômenos não representam apenas eventos ambientais. Eles comprometem o acesso à água potável, interrompem o funcionamento das escolas, fragilizam os sistemas de saúde, ampliam a insegurança alimentar e elevam o risco de doenças, deslocamentos forçados e pobreza.
"A vida das crianças segue sendo profundamente abalada por ondas de calor, incêndios florestais, secas e enchentes", afirmou a diretora-executiva do UNICEF, Catherine Russell. Segundo ela, metade das crianças do planeta já cresce em um ambiente marcado por múltiplas ameaças climáticas permanentes.
Poluição do ar agrava situação brasileira
Além dos eventos extremos, o relatório incorpora pela primeira vez a análise da exposição infantil à poluição atmosférica e à malária, dois fatores diretamente influenciados pelas mudanças climáticas.
No Brasil, os dados mostram que 95% das crianças e adolescentes, cerca de 47 milhões, estão expostos à poluição do ar.
Outros 5,6 milhões vivem em áreas com risco de transmissão da malária, especialmente em regiões amazônicas onde alterações ambientais favorecem a proliferação do mosquito transmissor.
O UNICEF destaca que esses fatores ampliam significativamente a vulnerabilidade de crianças que já convivem com secas, calor intenso e outros eventos extremos.
Desigualdade amplia impactos da emergência climática
O relatório ressalta que o risco climático não depende apenas da intensidade dos eventos naturais.
A capacidade de resposta das comunidades é determinada pelo acesso a serviços públicos essenciais, como saúde, educação, abastecimento de água, saneamento básico, proteção social e alimentação.
Por isso, países marcados pela pobreza estrutural enfrentam impactos muito mais severos.
Na África, especialmente na região do Sahel, milhões de crianças convivem simultaneamente com calor extremo, tempestades de areia e ondas de calor.
Na Ásia, países como Bangladesh, Mianmar e Paquistão concentram algumas das situações mais críticas do planeta.
Mesmo países desenvolvidos não escapam da crise. Na Itália, por exemplo, mais de seis milhões de crianças já convivem com secas e ondas de calor prolongadas, demonstrando que os impactos climáticos assumiram dimensão global.
Mudanças climáticas pressionam governos
O UNICEF alerta que, sem uma redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa, os eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes, intensos e prolongados.
Isso significa maior pressão sobre os sistemas públicos de saúde, educação, assistência social e infraestrutura, além do aumento dos gastos governamentais com reconstrução e resposta a desastres.
Segundo a organização, investir em prevenção custa menos do que reparar os danos produzidos pelos eventos climáticos extremos.
Recomendações
Entre as principais recomendações apresentadas pelo UNICEF estão:
reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa e acelerar a transição para energias renováveis;
fortalecer escolas, hospitais e serviços públicos para resistirem aos impactos climáticos;
ampliar sistemas de alerta precoce voltados às crianças;
garantir segurança alimentar e acesso universal à água potável;
fortalecer programas de proteção social para situações de emergência;
ampliar a participação de crianças e adolescentes nas políticas públicas relacionadas ao clima.
Para Catherine Russell, investir em infraestrutura resiliente significa proteger simultaneamente o presente e o futuro das novas gerações.
"Quando fortalecemos sistemas de saúde e educação e melhoramos a infraestrutura com foco nas crianças, protegemos seu presente e garantimos seu futuro", afirmou.
Crise climática e direitos da infância
Os dados apresentados pelo UNICEF reforçam que a crise climática deixou de ser apenas um desafio ambiental e passou a representar uma das principais ameaças aos direitos humanos da infância.
O relatório demonstra que os efeitos do aquecimento global atingem primeiro as populações mais vulneráveis, aprofundando desigualdades históricas e comprometendo o desenvolvimento de milhões de crianças.
Diante desse cenário, especialistas defendem que políticas climáticas deixem de ser tratadas apenas como medidas ambientais e passem a integrar estratégias permanentes de proteção social, combate à pobreza e garantia dos direitos das futuras gerações.
(Matéria em atualização)
CLIQUE PARA BAIXAR ARQUIVO PDF

















Comentários