Rio de Janeiro: Cláudio Castro deixa governo sob cerco judicial e legado marcado por crises e escândalos
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Balanço crítico da gestão aponta avanço de investigações, rombos financeiros, alta letalidade policial e promessas não cumpridas

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, deixou o cargo na véspera de um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode resultar em sua cassação e inelegibilidade, encerrando um ciclo de cinco anos marcado por crises políticas, denúncias de corrupção, problemas fiscais e forte contestação social.
A saída, oficialmente vinculada à disputa pelo Senado, ocorre sob pressão de investigações que atingem diretamente sua gestão, especialmente o escândalo dos “cargos secretos” ligados à Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (Ceperj), que movimentaram centenas de milhões de reais durante o período eleitoral de 2022. O caso, ainda em análise, é considerado um dos mais graves da trajetória recente do governo fluminense.
Do impeachment à crise de legitimidade
Castro assumiu o governo em 2020, após o afastamento e posterior impeachment de Wilson Witzel, consolidando-se no cargo em 2021 e sendo reeleito em 2022. No entanto, sua gestão passou a ser marcada por uma crescente crise de legitimidade, impulsionada por denúncias, investigações e decisões políticas controversas.
O esquema investigado no Ceperj, que envolveu contratações sem critérios e pagamentos em dinheiro vivo, levanta suspeitas de uso da máquina pública para fins eleitorais. Parte dos recursos utilizados teria origem em verbas da concessão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), inicialmente destinadas a investimentos estruturais.
Finanças sob pressão e risco aos servidores
Na área fiscal, o governo enfrentou forte desequilíbrio nas contas públicas. Apesar da adesão ao Regime de Recuperação Fiscal e de negociações com a União, o estado encerra o ciclo com previsão de déficit bilionário.
Um dos episódios mais controversos foi a aplicação de cerca de R$ 2,6 bilhões do RioPrevidência em fundos ligados ao banco Master, decisão que expôs recursos de aposentadorias de servidores a operações consideradas de risco pelo mercado. O caso resultou em investigações e prisão de dirigentes do fundo, ampliando o desgaste da gestão.
Segurança pública: redução de índices e aumento da letalidade

Na segurança pública, Castro deixa números que apontam “queda nos homicídios” e nas mortes em confronto com a polícia. No entanto, o período também foi marcado por operações de alta letalidade, incluindo duas das mais violentas da história recente do estado: o Jacarezinho, em 2021, e a operação no Complexo do Alemão/Penha, em 2023.
As ações geraram críticas de entidades de direitos humanos e expuseram uma política de segurança baseada no confronto, frequentemente associada à violação de direitos em territórios periféricos.
A resistência inicial do governo ao uso de câmeras corporais por policiais também foi alvo de críticas, sendo posteriormente revertida por determinação judicial — ainda assim, com implementação parcial e falhas operacionais.
Escândalos e crise administrativa
A gestão também foi impactada por uma série de escândalos envolvendo diferentes áreas do governo. Investigações sobre corrupção no sistema penitenciário, suspeitas de ligação de autoridades com organizações criminosas e o caso dos transplantes com órgãos contaminados por HIV evidenciaram falhas graves na gestão pública e na fiscalização estatal.
Além disso, o aumento significativo no número de cargos comissionados e denúncias de uso político da máquina pública reforçam a percepção de aparelhamento e fragilidade institucional.
Infraestrutura e promessas incompletas
Embora o governo tenha entregado alguns equipamentos importantes na saúde, como o Rio Imagem da Baixada e o Onco Baixada, outras promessas estruturais não saíram do papel. Projetos como a Linha 3 do metrô e o metrô leve na Baixada Fluminense seguem sem execução, enquanto obras antigas avançaram apenas parcialmente.
Na mobilidade urbana, os resultados ficaram aquém das expectativas, com soluções pontuais e ausência de um plano estruturante para o setor.
Um legado sob questionamento
A saída de Cláudio Castro sintetiza um governo marcado por contradições: de um lado, alguns avanços pontuais; de outro, um conjunto robusto de denúncias, crises e decisões que fragilizaram a gestão pública.
A proximidade entre sua saída e o julgamento no TSE reforça a leitura de que o movimento político ocorre em um cenário de tentativa de sobrevivência institucional diante do avanço das investigações.
Mais do que um encerramento de mandato, o fim da gestão Castro expõe um ciclo político que, longe de representar estabilidade, deixa como marca principal o aprofundamento das tensões entre gestão pública, responsabilidade fiscal e legitimidade democrática.
Entre a disputa eleitoral e o avanço das investigações, o legado do ex-governador permanece sob forte contestação — tanto nos tribunais quanto na sociedade.











