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Aquífero Alter do Chão vira vítima de turismo predatório, especulação imobiliária e omissão do Estado.

Imagem: Redes Sociais
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Por Ailane Brito

 

Um gigante invisível sob nossos pés


Pouca gente sabe, mas sob o solo da Amazônia repousa uma das maiores reservas de água doce subterrânea do planeta: o Aquífero Alter do Chão. Estendido por áreas do Pará, Amazonas e Amapá, esse sistema hidrogeológico armazena um volume estimado em dezenas de milhares de quilômetros cúbicos de água potável, sendo fundamental para o abastecimento humano, o equilíbrio ambiental e a segurança hídrica do país.


Mesmo assim, esse patrimônio estratégico segue sem proteção efetiva, ameaçado por desmatamento, expansão urbana desordenada, mineração ilegal, turismo predatório e um modelo de desenvolvimento que prioriza lucro imediato em detrimento da vida.


Turismo de fachada e especulação no coração da Amazônia


Alter do Chão, conhecida internacionalmente como o “Caribe Amazônico”, é hoje vitrine turística do Pará. Mas por trás das campanhas de marketing e das praias paradisíacas, cresce uma realidade preocupante: especulação imobiliária, avanço de grandes empreendimentos e licenciamento ambiental permissivo.


Diante desse cenário, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou recentemente a criação de uma Unidade de Conservação Federal na região, alertando para o aumento do desmatamento, da grilagem de terras e da pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis. A recomendação evidencia algo grave: o poder público local não tem conseguido  ou não tem querido conter a degradação ambiental.


Enquanto resorts e condomínios avançam, comunidades tradicionais e povos indígenas seguem invisibilizados, sem garantia de participação nas decisões sobre o território que habitam há gerações.


Água escura não é fenômeno natural


Imagem: Redes Sociais
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Nos últimos anos, imagens do Rio Tapajós com água barrenta e escurecida chocaram moradores e turistas. Pesquisadores, órgãos ambientais e a própria Polícia Federal apontam causas evidentes: garimpo ilegal, desmatamento nas cabeceiras dos rios e erosão do solo em larga escala.


Laudos técnicos indicam que milhões de toneladas de sedimentos estão sendo despejadas na bacia do Tapajós, alterando drasticamente a qualidade da água. Embora autoridades insistam em dizer que a água está “própria para banho”, esse tipo de análise não avalia contaminação por mercúrio ou outros metais pesados, comuns em áreas afetadas pela mineração ilegal.


A degradação visível dos rios é um alerta direto para o que pode estar acontecendo também no subsolo, atingindo o Aquífero Alter do Chão de forma silenciosa e possivelmente irreversível.


Saneamento precário e risco à saúde pública


O problema não é apenas ambiental, é social. A expansão urbana sem saneamento básico adequado aumenta o risco de contaminação das águas subterrâneas, inclusive das que abastecem cidades como Santarém.


Estudos acadêmicos já alertavam que o crescimento desordenado, aliado à ausência de políticas de proteção hídrica, pode comprometer a qualidade da água consumida pela população. Em regiões amazônicas mais isoladas, comunidades indígenas já enfrentam escassez e contaminação da água, agravadas por secas intensas e mudanças climáticas.

É o retrato cruel de um país que abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo, mas ainda nega água segura a milhões de pessoas.


A quem interessa o silêncio?


O Aquífero Alter do Chão deveria ser tratado como recurso estratégico nacional, protegido por políticas públicas rigorosas e por um plano de gestão transparente. No entanto, o que se vê é a normalização da destruição, o enfraquecimento da fiscalização ambiental e a tentativa de transformar água em mercadoria.


A pergunta que precisa ser feita é direta: Quem ganha com a destruição da Amazônia e com a fragilização da segurança hídrica brasileira? Certamente não são os povos da floresta, nem as populações urbanas que dependem dessas águas para viver.


Defender a água é um ato político


A defesa do Aquífero Alter do Chão não é apenas uma pauta ambiental. É uma luta por soberania, justiça social e direito à vida. Proteger essa reserva significa garantir futuro, enfrentar interesses econômicos predatórios e romper com a lógica colonial que transforma a Amazônia em depósito de recursos a serem explorados.


Romantizar praias enquanto o subsolo é saqueado é uma forma moderna de violência ambiental. A Amazônia não pode continuar sendo explorada até a exaustão — nem em cima da terra, nem debaixo dela.


Portanto, é urgente parar de romantizar a Amazônia como destino turístico ou recurso econômico fácil e começar a tratá-la como o que realmente é: o coração hídrico que bombeia vida para todo o Brasil e o planeta. Entendendo que a água da Amazônia não é mercadoria. É direito, é vida e é resistência.





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