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Coluna do Cão Chupando Manga: Belém avança tanto que agora as pontes também resolveram pedir demissão

  • há 1 dia
  • 2 min de leitura


Belém segue surpreendendo. Quando a população imaginava que o limite da precariedade urbana já havia sido atingido com ruas que viram rios, escolas que alagam, unidades de saúde sucateadas e promessas de obras eternamente “em fase de anúncio”, eis que a cidade entrega mais uma inovação administrativa: pontes que simplesmente desistem de existir.

Nesta segunda-feira (18), a ponte metálica do antigo Trapiche de Icoaraci resolveu participar ativamente do debate sobre infraestrutura pública e colapsou com um estrondo digno de filme-catástrofe. Segundo relatos de trabalhadores que estavam no local, o susto foi imediato. Não houve vítimas. Menos mal. Porque, se depender da velocidade da manutenção preventiva, talvez a estratégia oficial agora seja contar com a sorte.

A área foi isolada. Naturalmente. Afinal, isolar depois que cai é sempre mais simples do que conservar antes que desabe.


A pergunta inevitável é: quantas estruturas públicas em Belém precisam ruir para que a gestão municipal descubra que manutenção não é um conceito abstrato?


O antigo Trapiche de Icoaraci não é apenas uma estrutura metálica qualquer. É parte da dinâmica econômica e social de uma região historicamente importante para Belém, onde trabalhadores dependem da circulação, do acesso e da mínima previsibilidade para tocar a vida. Mas previsibilidade, ao que parece, é um privilégio indisponível na cidade administrada entre vídeos institucionais, agendas fotográficas e anúncios embalados para redes sociais.


Porque na Belém oficial, tudo parece funcionar. As imagens são bonitas, os discursos otimistas, os releases impecáveis. Já na Belém real, a ponte cai.


E convenhamos: quando até estruturas de ferro entram em colapso, talvez não seja apenas desgaste material. Pode ser identificação com o humor coletivo da cidade.


O mais curioso é que, inevitavelmente, surgirá alguma nota protocolar falando em “avaliação técnica”, “medidas cabíveis”, “levantamento estrutural” e talvez até “plano emergencial”. O vocabulário da gestão para o pós-desastre já virou peça de repertório. O problema é que a população está cansada de respostas que sempre chegam depois do estrondo.


A ausência de vítimas não deve servir como salvo-conduto político. Deve servir como alerta máximo.


Porque gestão pública não se mede pelo tamanho da nota oficial após o colapso. Mede-se pela capacidade de impedir que o colapso aconteça.


Mas talvez estejamos sendo injustos.


Vai ver a ponte apenas aderiu ao espírito da cidade.


Cansou de esperar.




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