Feminicídio não é estatística: antes do funeral, onde estava o Estado?

E-mail: ailanybrito7@gmail.com
Agosto terminou, mas algumas reflexões não cabem no calendário. Durante as atividades do Agosto Lilás, entre rodas de conversa, debates e ações de conscientização, fui percebendo que algumas palavras, depois que a gente aprende o verdadeiro peso delas, já não conseguem mais passar despercebidas. O Curso de Formação Popular dos Direitos das Mulheres me ensinou a olhar para a violência contra nós para além das manchetes e dos números: a enxergar as estruturas que a sustentam, os silêncios que a alimentam e, principalmente, os direitos que tantas mulheres ainda precisam lutar para conhecer e acessar.
Desde então, quando ouço falar em feminicídio, já não consigo enxergar apenas uma estatística. Vejo uma história interrompida, uma família que ficará para sempre com uma ausência, uma mulher que talvez tenha pedido socorro antes que fosse tarde. E foi justamente nesse exercício de aprender a olhar, reparar e questionar que uma inquietação começou a me acompanhar: o que estamos fazendo, enquanto sociedade e enquanto Estado, para que o próximo nome não precise entrar para essa lista?
A pergunta chega em um momento especialmente delicado para o Pará. Estamos em ano eleitoral. Seis nomes disputam o Governo do Estado. Todos têm projetos diferentes para o Pará, visões diferentes de desenvolvimento, segurança, saúde e economia. Mas existe uma questão diante da qual não deveria haver diferença de ideologia capaz de justificar silêncio: como proteger as mulheres da violência que mata?
Porque enquanto os palanques começam a ser montados, há mulheres tentando sobreviver dentro da própria casa.
Há mulheres que já foram ameaçadas.
Mulheres perseguidas.
Mulheres que carregam no corpo as marcas de agressões.
Mulheres que conseguiram uma medida protetiva.
Mulheres que procuram ajuda.
E mulheres que não tiveram tempo de chegar ao próximo dia.
Os números do feminicídio são a parte mais cruel dessa história.
O Pará registrou 52 feminicídios em 2024 e 63 em 2025, segundo levantamento baseado em dados oficiais. O crescimento é superior a 20%. E o cenário de 2026 exige ainda mais atenção.
Entre janeiro e julho deste ano, o Brasil registrou 848 vítimas de feminicídio, uma redução de 3,2% em relação ao mesmo período de 2025. Mas o Pará não pode olhar para essa redução nacional como se fosse uma notícia para comemorar.
Aqui, a violência contra as mulheres continua sendo uma ferida aberta.
E é justamente nesse ponto que a eleição para o Governo do Pará precisa deixar de ser apenas uma disputa por poder e se transformar também em uma disputa por compromisso.
O que cada candidato e cada candidata pretende fazer para que uma mulher ameaçada não precise esperar o agressor cumprir a ameaça para que o Estado apareça?

A atual governadora e candidata à reeleição, Hana Ghassan, apresenta em seu plano para 2027–2030 propostas como ampliar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, com funcionamento 24 horas nas regiões de integração; intensificar a Operação Escudo Feminino nos 144 municípios; fortalecer o SOS Mulher; criar novos abrigos e Casas da Mulher Paraense; e construir dois novos Hospitais da Mulher. O plano também prevê capacitação dos profissionais de segurança e benefícios sociais e financeiros para mulheres em situação de vulnerabilidade e vítimas de violência.
É preciso reconhecer essas propostas.
Mas é preciso também fazer uma pergunta à candidata que representa a continuidade da atual gestão: se a rede está sendo ampliada, quais resultados concretos serão entregues?
Quantas novas unidades serão abertas?
Em quais municípios?
Quanto será investido?
Qual será a meta de redução dos feminicídios?
Porque promessa de governo não pode ser apenas uma lista de boas intenções. Precisa ter número, prazo, orçamento e mecanismo de acompanhamento.
O candidato Dr. Daniel, do Podemos, também apresenta propostas para as mulheres. Seu programa prevê fortalecimento das políticas de autonomia econômica e qualificação profissional, além de ações de enfrentamento à violência.
Mas aqui cabe a mesma cobrança.
Como será esse enfrentamento?
Quantas delegacias?
Quantas equipes?
Qual será a estratégia para o interior?
Como serão fiscalizadas as medidas protetivas?
Como será feito o acompanhamento das mulheres em maior risco?
Porque dizer que é preciso fortalecer a rede é correto. Mas uma mulher ameaçada não vive de verbo no infinitivo.
Ela precisa de uma porta aberta.
De uma equipe preparada.
De uma viatura.
De um abrigo.
De atendimento psicológico.
De assistência jurídica.
De renda para conseguir sair da dependência do agressor.
E, quando necessário, de proteção imediata.
A candidata Araceli Lemos, do PSOL, apresenta uma proposta mais específica: instalar delegacias especializadas de proteção às mulheres em todos os municípios, com funcionamento 24 horas, incluindo mulheres trans e travestis. Também propõe um programa permanente de prevenção à violência contra a mulher, com atenção às escolas e aos espaços públicos.
É uma proposta que merece ser colocada à prova justamente porque o Pará possui 144 municípios.
Uma pergunta simples precisa ser feita:
como garantir que essa promessa não fique concentrada na Região Metropolitana?
Porque o Pará não termina em Belém.
Há mulheres nas comunidades ribeirinhas.
Nas ilhas.
Nas áreas rurais.
Nas periferias.
Nos municípios distantes dos grandes centros.
E para muitas delas, denunciar uma violência significa enfrentar quilômetros de estrada ou horas de rio.
A candidata Gal Leite, da Unidade Popular, coloca a violência contra as mulheres dentro de uma proposta mais ampla de proteção social. Seu programa prevê ampliação das Delegacias da Mulher, funcionamento 24 horas, casas-abrigo, assistência jurídica gratuita e medidas de autonomia econômica, incluindo auxílio financeiro para mulheres vítimas de violência.
Aqui aparece uma questão que muitas vezes é esquecida quando se fala em feminicídio: dependência econômica também pode prender uma mulher dentro de uma relação violenta.
Como sair de casa quando não se tem para onde ir?
Como proteger os filhos sem dinheiro?
Como reconstruir a vida quando o agressor controla a renda?
Combater o feminicídio também passa por responder a essas perguntas.
A candidata Well Macêdo, do PSTU, apresenta uma leitura estrutural da violência contra as mulheres. Seu programa associa a violência de gênero às desigualdades sociais e propõe políticas e delegacias especializadas para combater a violência contra a mulher.
É uma abordagem que desloca o debate para além da segurança pública e questiona as estruturas sociais que produzem desigualdade e violência.
Mas também merece uma cobrança objetiva: como transformar esse diagnóstico estrutural em proteção imediata para a mulher que está sendo ameaçada hoje?
Porque podemos discutir patriarcado, desigualdade, exploração e machismo, e devemos. Mas enquanto discutimos, uma mulher pode estar trancada dentro de casa, ouvindo o homem que a ameaça bater à porta.
Ela precisa sobreviver hoje.
Por fim, a candidatura do Democrata, agora encabeçada por Ruth Reis, precisa também ser incluída nessa cobrança. A mudança ocorreu no fim de agosto, quando José Moita deixou a disputa e Ruth Reis assumiu a cabeça da chapa.
E há aqui uma questão especialmente importante: o programa de governo que estava registrado para a chapa anterior passa a precisar ser lido à luz da nova candidatura.
Não basta mudar o nome da cabeça da chapa.
É preciso saber se a candidata assumirá integralmente as propostas apresentadas, quais pretende aperfeiçoar e, principalmente, o que propõe especificamente para enfrentar o feminicídio e proteger as mulheres paraenses.

É exatamente aí que deveria estar o papel de quem vota.
Não escolher apenas pelo discurso mais bonito.
Não escolher pelo partido.
Não escolher pela simpatia.
Não escolher pela fotografia ao lado de uma mulher em uma campanha de Agosto Lilás.
É preciso ler.
Perguntar.
Comparar.
Cobrar.
Porque todos serão capazes de dizer que são contra o feminicídio.
Ser contra é fácil.
Difícil é apresentar uma política pública capaz de impedir que ele aconteça.
E aqui está talvez a maior provocação desta eleição: qual candidato ou candidata está disposto a estabelecer metas públicas para reduzir o feminicídio no Pará?
Não apenas criar programas.
Não apenas inaugurar prédios.
Não apenas fazer campanhas.
Mas estabelecer indicadores.
Publicar resultados.
Identificar os municípios mais vulneráveis.
Mapear reincidência.
Acompanhar medidas protetivas.
Monitorar agressores de alto risco.
Garantir atendimento psicológico e jurídico.
Expandir abrigos.
Garantir autonomia financeira.
Capacitar profissionais.
E, sobretudo, fazer com que a política de proteção chegue à mulher antes que a violência chegue ao ponto final.
Porque o feminicídio não começa no momento em que o homem mata.
Ele pode começar muito antes.
Começa no controle.
Na ameaça.
Na perseguição.
Na humilhação.
Na agressão.
No isolamento.
No “se você não for minha, não será de ninguém”.
E, muitas vezes, termina quando alguém liga para a polícia tarde demais.
Por isso, a pergunta que dá título a este artigo não é uma pergunta sobre culpa individual.
É uma pergunta sobre responsabilidade pública:
antes do funeral, onde estava o Estado?
Onde estava quando ela pediu ajuda?
Onde estava quando a primeira ameaça apareceu?
Onde estava quando a medida protetiva foi descumprida?
Onde estava quando ela precisou de um lugar seguro?
Onde estava quando ela não tinha dinheiro para ir embora?
Onde estava quando seus filhos também estavam em risco?
E, principalmente, onde estará a próxima vez?
O Governo do Pará não pode ser avaliado somente pelo número de prisões depois que a violência acontece.
Precisa ser avaliado também pelo número de vidas que conseguiu preservar.
A atual gestão tem o dever de prestar contas sobre aquilo que já fez.
Os candidatos de oposição têm o dever de apresentar propostas que possam ser cobradas.
E todos, absolutamente todos, precisam dizer quanto estão dispostos a investir para proteger as mulheres.
Porque não existe desenvolvimento quando metade da população precisa calcular o risco de voltar para casa.
Não existe segurança pública quando uma mulher vive com medo do homem que conhece seu endereço, sua rotina e seus filhos.
Não existe política para mulheres quando a proteção chega apenas depois da morte.
E não existe campanha eleitoral suficientemente séria se a vida das mulheres aparece apenas como discurso de palanque.
O Agosto Lilás terminou.
As fitas roxas serão guardadas.
Os cartazes serão retirados.
As rodas de conversa chegarão ao fim.
Mas as mulheres continuarão aqui.
Algumas continuarão tentando reconstruir suas vidas.
Outras continuarão tentando escapar.
E algumas, infelizmente, poderão não chegar ao próximo Agosto Lilás.
É por isso que o aprendizado que ficou para mim depois desse período de formação não foi apenas conhecer leis, direitos e mecanismos de proteção.
Foi entender que conhecer direitos também significa aprender a cobrar quem tem o dever de garanti-los.
E, neste momento eleitoral, essa cobrança precisa chegar a todos os candidatos e candidatas ao Governo do Pará.
Não queremos apenas saber quem tem o melhor discurso sobre as mulheres.
Queremos saber quem tem o compromisso de mantê-las vivas.
Porque depois que chega o funeral, não existe política pública capaz de devolver aquela mulher para casa.
E nenhuma urna deveria esquecer disso.














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