Indígenas de vários estados denunciam ao MP-AM o apagamento de profissionais indígenas em editais ambientais
- contatoinforevollu
- há 6 dias
- 3 min de leitura

E-mail: contato@inforevolucao.com
Por décadas, o Amazonas construiu para si a imagem de guardião da floresta e vitrine da diversidade brasileira. No entanto, por trás do discurso ambiental e institucional, consolida-se uma política pública silenciosa e altamente eficaz de exclusão: o afastamento sistemático de profissionais indígenas dos espaços de trabalho, decisão e visibilidade.
Na quarta-feira, 7 de janeiro, a presidente do Instituto Cartografando Saberes, Alanna Tupinambá, acionou o Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) para denunciar a ausência total de vagas destinadas a pessoas indígenas nos editais ambientais publicados no estado. A denúncia provocou indignação imediata e repercussão negativa entre indígenas de diferentes povos e territórios do Brasil, que se reconheceram na mesma lógica de exclusão.
Indígenas de diversos estados formalizaram representação junto ao MP-AM contra os editais lançados pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) e pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA-AM). O núcleo da denúncia é contundente: mesmo sendo o Amazonas o estado com a maior população indígena do país, não há qualquer previsão de vagas para profissionais indígenas nos processos seletivos ambientais.
Entre os denunciantes está o advogado Jucinei Terena, indígena de Mato Grosso e integrante do Conselho Terena. Para ele, a exclusão não pode ser tratada como falha administrativa, mas como reflexo de uma estrutura racista profundamente enraizada. “A ausência de indígenas nos editais reforça o racismo, o preconceito e a xenofobia ainda muito presentes no Amazonas”, afirma. Segundo Jucinei, a omissão do Estado não apenas impede o acesso ao emprego, mas reforça a falsa ideia de que indígenas não pertencem aos espaços técnicos e estratégicos da administração pública. Por isso, defende a mobilização do movimento indígena em âmbito nacional para denunciar práticas semelhantes em outros estados.
Também apresentou representação a Doutora Mariana Tikuna, natural de Benjamin Constant, no Amazonas, atualmente residente em Belém do Pará. Para ela, a disputa por espaço profissional segue longa, mas a resistência indígena é ainda maior. Mariana denuncia o que classifica como uma estratégia “cruel e covarde” dos governos: a exclusão deliberada de indígenas dos espaços de poder. “Essa violência silenciosa mata todos os dias milhares de indígenas formados e capacitados, que são expulsos ou simplesmente impedidos de acessar o mercado de trabalho pelo único motivo de serem indígenas”, afirma.
A denúncia assume contornos ainda mais duros na análise da advogada indígena Inory Kanamari, que há anos expõe o racismo estrutural, o preconceito e a xenofobia no Norte do país. Para ela, os editais ambientais são apenas mais um capítulo de uma política contínua de extermínio profissional. “Mesmo sendo o Amazonas o estado brasileiro com o maior número de indígenas, não se veem indígenas ocupando espaços de comando, poder ou visibilidade. O que existe é uma política covarde e silenciosa de exclusão”, denuncia.
Segundo Inory, essa política não elimina corpos, mas destrói trajetórias, saberes e futuros. “É uma forma moderna de matar profissionais indígenas: negar trabalho, reconhecimento e pertencimento. Os povos indígenas são os verdadeiros protagonistas do Amazonas, mas seguem empurrados para as margens da sociedade amazonense”, afirma.
A advogada também dirige críticas severas à atuação de grupos políticos que se autodenominam de esquerda no estado. Para ela, a pauta indígena é frequentemente instrumentalizada em períodos eleitorais e abandonada após as urnas. “Depois do voto, os indígenas passam a existir apenas como números em programas assistencialistas, mantidos dependentes de cestas básicas e favores do governo”, critica. Inory classifica essa prática como uma estratégia deliberada de empobrecimento e controle social.
Em tom contundente, afirma que parte da classe política se sustenta a partir da miséria indígena. “Há parlamentares que vivem da desgraça e do desaparecimento dos povos indígenas. São verdadeiros sanguessugas políticas”, dispara.
As representações protocoladas no Ministério Público revelam um problema estrutural que ultrapassa, em muito, um edital específico. Expõem um modelo de gestão pública que, sob o verniz da legalidade, promove o apagamento de profissionais indígenas e perpetua desigualdades históricas. No Amazonas, a exclusão não grita. Ela opera em silêncio, e justamente por isso segue sendo tão eficiente.

















Comentários