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O Escândalo que a mídia não mostra na COP 30: ENEVA e a violência na Amazônia

 

Hoje venho chamar atenção para um assunto que não tem recebido o destaque merecido no Amazonas. A mídia tradicional permanece em silêncio, um silêncio confortável, conveniente e cúmplice, diante de violações gravíssimas que acontecem exatamente agora, no momento em que o mundo volta seus olhos para Belém durante a COP 30.


Enquanto líderes globais desembarcam para debater o “futuro da humanidade”, a “economia verde” e a “defesa do clima”, nós, povos da Amazônia, continuamos sofrendo as consequências de um modelo predatório que nunca se foi, apenas pintou-se de verde para parecer sustentável.


E é nesse contexto que surge a Portaria de Instauração nº 2025/0000071054.01PROM_ITP, do Ministério Público do Amazonas, abrindo um Inquérito Civil contra a ENEVA S.A., a maior operadora privada de gás natural do Brasil. Um documento que, sozinho, desmonta toda a propaganda verde que estamos vendo circular nos corredores da COP.


Quando o verde do marketing não chega na beira do rio


A ENEVA chegou ao Amazonas com discursos conhecidos: progresso, emprego, desenvolvimento, futuro. Mas o que deixou para os municípios de Silves e Itapiranga foi um rastro de instabilidade, insegurança e violência.


O Ministério Público afirma com todas as letras que a chegada massiva de trabalhadores, sem planejamento social adequado, provocou:


  • aumento no tráfico de drogas

  • mais casos de estupro e violência doméstica

  • perturbação do sossego

  • homicídios ligados a facções

  • sobrecarga dos serviços públicos

  • colapso da segurança local


É a velha história: a riqueza sobe o rio, mas os danos ficam. E a população local é quem paga a conta.


Mesmo diante disso, a empresa posa como referência em “transição energética” nas vitrines da COP 30, o que só reforça a distância entre o discurso internacional e a vida real na Amazônia profunda.


Quando o lucro é bilionário, mas a responsabilidade é zero


A Portaria do MP revela uma contradição que ninguém ousa falar em público:

a ENEVA lucra bilhões, mas não oferece sequer alojamento digno para policiais.


A empresa inflacionou o mercado imobiliário das cidades, ocupou hotéis e residências, deixando as forças de segurança sem condições mínimas para atuar. No próprio Estudo de Impacto Ambiental, reconheceu:


  • explosão populacional

  • sobrecarga dos serviços públicos

  • fragilidade das cidades


Mas ignorou deliberadamente os impactos na segurança pública. Ignorou porque pôde. Ignorou porque não foi cobrada. Ignorou porque faz parte da lógica extrativista que domina nossa região há séculos.


O MP pediu o mínimo, e ainda assim precisou abrir um inquérito


A Promotoria deu prazos e exigiu medidas emergenciais:


  • hospedagem digna para policiais

  • plano imediato de mitigação

  • construção de companhias policiais

  • reforma de delegacias

  • doação de caminhonetes, lanchas, drones, câmeras e rede de monitoramento

  • infraestrutura mínima para o funcionamento da segurança pública


Em pleno 2025, precisamos de um Inquérito Civil para obrigar uma gigante do setor energético a assumir responsabilidade básica por impactos que ela mesma causou.

É assim que funciona o “desenvolvimento” na Amazônia.


E o que isso revela sobre a COP 30?


Enquanto discursos inflamados ecoam nos auditórios de Belém, falando sobre justiça climática, a vida real nos municípios amazônicos mostra outra face:a face das empresas que enriquecem com nossa terra enquanto deixam para nós a violência, o caos urbano e a destruição social.


O mundo quer ouvir falar de floresta, mas não quer ouvir falar das pessoas da floresta.Quer ouvir sobre carbono, mas não quer ouvir sobre sangue.Quer ouvir sobre futuro, mas ignora nosso presente.


E nós, povos indígenas, mulheres, defensores da floresta, seguimos denunciando o óbvio:


não existe justiça climática sem justiça territorial, social e comunitária.

Nós existimos, e não vamos recuar


Como advogada indígena, afirmo: este Inquérito Civil não é apenas um documento administrativo.É um alerta.É uma reação.É a prova de que não estamos calados, e não ficaremos.


A ENEVA terá que responder. Se não cumprir suas obrigações, que responda judicialmente, financeiramente e moralmente.


Não aceitaremos mais que empresas venham à Amazônia explorar, destruir e partir, deixando apenas violência e escombros.


Nesta COP 30, enquanto o mundo finge que tudo está mudando, a verdade é uma só:

a floresta continua sendo sacrificada para gerar lucro, e os povos da Amazônia continuam pagando o preço.


Mas nós seguimos aqui:

Denunciando

Resistindo

E exigindo justiça.

 


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