REPORTAGEM ESPECIAL | Avenida Liberdade: a estrada das promessas, o corredor da morte
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Obra símbolo do governo Helder Barbalho/Hana Ghassan é marcada por denúncias de atropelamentos de animais, impactos sobre quilombolas e ribeirinhos, ações judiciais e questionamentos sobre seu modelo de desenvolvimento

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BELÉM (PA) — Vendida como a maior obra de mobilidade urbana da história recente do Pará, a Avenida Liberdade passou a simbolizar também um dos maiores conflitos socioambientais da Região Metropolitana de Belém. Poucos meses após sua entrega, a rodovia acumula denúncias de mortes frequentes de animais silvestres e domésticos por atropelamento, reclamações de comunidades tradicionais atingidas pelo empreendimento, questionamentos do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública e críticas de ambientalistas que afirmam que os impactos previstos durante o licenciamento continuam sem resposta adequada.
Ao longo dos cerca de 14 quilômetros da via, animais como capivaras, lontras, quatis, cobras, e cães são encontrados mortos com frequência. As imagens compartilhadas por moradores nas redes sociais e por protetores da fauna transformaram a avenida em um símbolo da dificuldade de conciliar grandes obras de infraestrutura com a preservação da biodiversidade amazônica.
A situação revela uma contradição. A mesma obra apresentada pelos governos de Helder Barbalho (MDB) e de sua sucessora, Hana Ghassan (MDB), como exemplo de desenvolvimento e modernização passou a ser associada por parte da população a um cenário de destruição ambiental, conflitos fundiários e perda de biodiversidade.
A promessa de revolucionar a mobilidade
Planejada para ligar a Alça Viária à Avenida Perimetral, integrando Belém, Ananindeua e Marituba, a Avenida Liberdade foi anunciada como solução para reduzir congestionamentos históricos da BR-316 e facilitar o deslocamento entre a capital e o interior.
O Governo do Pará sustentou que mais de dois milhões de pessoas seriam beneficiadas pela nova ligação viária, além de destacar ganhos econômicos decorrentes da melhoria da logística regional.
A obra rapidamente tornou-se uma das principais vitrines da gestão Helder Barbalho/Hana Ghassan que concluiu e entregou o empreendimento mantendo o discurso de modernização da infraestrutura estadual.
Entretanto, desde o início das obras, organizações ambientais, pesquisadores e comunidades tradicionais alertavam para os impactos que poderiam ocorrer caso não fossem adotadas medidas robustas de mitigação ambiental.
Uma estrada construída sobre corredores naturais da fauna

Grande parte da Avenida Liberdade atravessa áreas anteriormente ocupadas por vegetação contínua.
Esses fragmentos funcionavam como corredores naturais utilizados diariamente por inúmeras espécies da fauna amazônica.
Com a abertura da rodovia, o habitat foi dividido.
Os animais continuam tentando alcançar áreas de alimentação, reprodução e abrigo, mas agora encontram uma pista de alta velocidade entre esses ambientes.
O resultado é visível.
Os atropelamentos se repetem quase diariamente.
Capivaras, lontras, quatis, cobras, e outros animais aparecem mortos sobre o asfalto ou às margens da estrada.
Além da perda imediata, especialistas ouvidos pelo Portal Info.Revolução alertam para impactos ecológicos mais amplos, como a redução da diversidade genética das populações, interrupção de rotas naturais de deslocamento e desequilíbrio ecológico.
A morte de predadores, dispersores de sementes e controladores naturais de pragas altera cadeias alimentares inteiras.
Passagens de fauna existem, mas são suficientes?
Animais atropelados na Avenida Liberdade: 1) Capivara 2) Lontra 3) Tamanduá Mirim - Imagens: Redes Sociais
O Governo do Pará informou que o projeto prevê 34 passagens de fauna, sendo estruturas aéreas e subterrâneas destinadas a permitir a travessia segura dos animais.
Entretanto, especialistas ressaltam que a simples instalação dessas estruturas não garante sua eficácia.
Para funcionarem adequadamente, elas precisam ser acompanhadas por cercamentos direcionadores, monitoramento permanente, manutenção contínua e estudos técnicos que confirmem sua utilização pelas espécies locais.
Até o momento, a recorrência de atropelamentos indica que as medidas adotadas podem não estar sendo suficientes para evitar a mortalidade registrada na rodovia.
Quando o progresso chega sem ouvir quem vive no território

As críticas à Avenida Liberdade não se limitam aos impactos ambientais.
Comunidades ribeirinhas e quilombolas denunciam que sofreram prejuízos profundos durante a implantação da obra.
Na comunidade Nossa Senhora dos Navegantes, famílias afirmam que a construção alterou a dinâmica dos igarapés, dificultou a pesca artesanal e comprometeu atividades tradicionais desenvolvidas há décadas.
No Quilombo do Abacatal, moradores denunciam danos ambientais, dificuldades de acesso e demora na implementação de medidas compensatórias prometidas pelo Estado.
Para essas populações, a obra significou mudanças profundas em seu modo de vida.
Defensoria e MPF apontam falhas
A Defensoria Pública do Estado do Pará questionou a ausência de consulta livre, prévia e informada às comunidades tradicionais, procedimento previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário.
Posteriormente, o Ministério Público Federal também ajuizou ações questionando aspectos da implantação da rodovia.
Entre as denúncias apresentadas estão supressão de vegetação, destruição de áreas produtivas, demolições, insegurança fundiária e impactos sobre comunidades tradicionais que dependem da floresta, dos rios e dos igarapés para sobreviver.
O MPF também demonstrou preocupação com o isolamento físico provocado pela rodovia, que pode dificultar o acesso das comunidades às áreas de cultivo, pesca e extrativismo.
Mais que mobilidade, um corredor logístico
Embora o discurso oficial tenha priorizado a melhoria do trânsito da Região Metropolitana, pesquisadores e movimentos socioambientais argumentam que a Avenida Liberdade também fortalece o corredor logístico entre a Região Metropolitana e a Alça Viária, facilitando o transporte de cargas em direção ao Porto de Vila do Conde.
Para esses grupos, a população recebeu a promessa de uma obra voltada à mobilidade urbana, enquanto os benefícios econômicos alcançam também grandes cadeias logísticas e empreendimentos privados.
Esse debate permanece aberto.
Problemas estruturais reforçam críticas

Mesmo antes da conclusão definitiva, a obra registrou episódios de erosão, rompimento de bueiros, alagamentos e cedimento do pavimento.
Moradores chegaram a realizar manifestações cobrando providências.
Os problemas ampliaram o questionamento sobre a qualidade da execução da obra e sobre a necessidade de fiscalização permanente.
A responsabilidade política

A Avenida Liberdade dificilmente pode ser dissociada dos governos do MDB.
Foi durante a gestão de Helder Barbalho que a obra ganhou prioridade política, recursos públicos e projeção institucional.
A conclusão e inauguração ocorreram sob o governo Helder Barbalho/Hana Ghassan, que assumiram “paternidade” e a “maternidade” do empreendimento.
Por isso, as críticas dirigidas ao empreendimento também alcançam seus principais patrocinadores políticos. Segundo fontes políticas ouvidas pelo Portal Info.Revolução, o tema deverá ganhar espaço no debate público e ser amplamente explorado durante as eleições de outubro.
“Se Helder Barbalho e Hana Ghassan reivindicam os méritos pela entrega da obra, também precisam responder pelas consequências decorrentes de sua implantação”, afirmou uma fonte ouvida pela reportagem.
A recorrência de atropelamentos de animais, os questionamentos apresentados por órgãos de controle, as reclamações das comunidades tradicionais e os conflitos socioambientais demonstram que a inauguração da avenida não encerrou os problemas.
Ao contrário, abriu uma nova etapa em que o Estado precisa demonstrar capacidade de corrigir falhas, ampliar medidas de proteção ambiental e reparar os impactos provocados às populações atingidas.
Ignorar esses sinais significa transformar uma obra concebida para melhorar a mobilidade em um exemplo permanente de como grandes projetos públicos podem perder legitimidade quando deixam em segundo plano a proteção da biodiversidade e os direitos das pessoas que vivem nos territórios afetados.
O Portal Info.Revolução perguntou a lideranças políticas qual é a avaliação que tinham sobre a Avenida Liberdade após sua inauguração e se, na opinião deles, os impactos ambientais, a morte de animais silvestres, os prejuízos às comunidades tradicionais e os problemas de infraestrutura vêm sendo devidamente enfrentados pelo Governo do Pará. Confira as respostas:
Vanuza Cardoso - Liderança do território Quilombola do Abacatal

"Os problemas já eram evidentes antes da inauguração. Ainda assim, a Avenida Liberdade foi entregue à população mesmo apresentando falhas na qualidade da obra. Bastaram alguns meses para surgirem problemas graves, como o desabamento de trechos da pista, colocando em xeque milhões de reais investidos no empreendimento.
Acredito que esses impactos poderiam ter sido evitados. No território quilombola do Abacatal, por exemplo, o projeto inicial foi alterado quatro vezes e, mesmo assim, o resultado foi o caos que estamos vendo hoje. As mortes de animais silvestres, os impactos ambientais e as profundas mudanças na vida das comunidades localizadas ao longo do percurso da Avenida Liberdade demonstram que o governo do Estado tinha conhecimento dos riscos e, ainda assim, levou adiante um empreendimento que deixou um rastro de destruição e evidenciou situações que muitos moradores classificam como racismo ambiental."
Marco Antônio Corrêa Mota - Indigenista, Coord. de Projetos - Rede FAOR

“Na verdade, o problema principal vem antes da inauguração da obra. A falta de consulta prévia, livre e informada das comunidades atingidas pelo empreendimento. Depois disso, tudo é problema. Tudo é atropelamento. Tudo é ilegalidade.
De maneira nenhuma. Hana só dá seguimento para os crimes cometidos por Helder. Nenhuma ação que ela diz que faz, pode diminuir o tamanho do desastre ambiental que é essa rodovia”.
Auricélia Arapium - Liderança Indígena do Baixo Tapajós

“A obra, por si só, já é um problema, porque vai na contramão do debate mundial sobre alternativas ao aquecimento global. Não será derrubando floresta, assoreando igarapés, matando animais, desrespeitando comunidades tradicionais e priorizando automóveis que enfrentaremos a crise climática e o El Niño. Além disso, foi uma obra eleitoreira, inaugurada às pressas, com materiais de baixa qualidade, que não resistiram às chuvas e nem a três meses de uso, revelando desperdício de dinheiro público.
Não estão sendo enfrentados. Pelo contrário, as medidas do governo do Pará estimulam esses impactos. Basta lembrar a atuação de Helder Barbalho na redução da Floresta Nacional do Jamanxim. Por isso digo que esse governo é uma farsa, assim como foi a COP30, transformada em balcão de negócios. O Estado segue priorizando agronegócio, mineração e grandes obras que passam por cima de povos indígenas e comunidades tradicionais. Até a mobilidade é falsa, pois imobiliza a fauna, a flora e os povos”.
Livia Duarte - Deputada Estadual (PSOL)

“A Avenida Liberdade revela a política de governo barbalhista: excludente e violento. A obra ultrapassou R$ 450 milhões e foi entregue com problemas estruturais e deixou um passivo ambiental e social. Enquanto poucos lucram, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, população preta e moradores das periferias seguem pagando a conta.
O Governo do Estado ignora os impactos da própria obra. Animais seguem morrendo na estrada, denúncias de violações contra comunidades tradicionais continuam sem resposta e o discurso da sustentabilidade desmorona diante da destruição dos territórios e do desrespeito à população”.
Mauricio Matos - Servidor Público Estadual e Membro da Diretoria Colegiada do Sindicato dos Servidores do Ministério Público do Pará (SISEMPPA)

“Após sua inauguração, está comprovado aquilo que já foi denunciado antes da execução da obra: a Av. Liberdade é uma farsa! O projeto foi vendido à população como sendo capaz de solucionar os problemas de engarrafamento na BR-316. Quem usou esta rodovia no mês de julho, constatou a grande mentira do governo Helder. Outra farsa foi a promessa de construir uma rodovia ecologicamente correta. A Liberdade seria uma via Classe 0, com cercas de contenção para a proteção da fauna, mas o atropelamento de animais silvestres e a presença de búfalos na pista comprovam que foram contadas mais mentiras.
O governo não vai solucionar os impactos sociais e ambientais da obra. Vai gastar milhões com dinheiro público e depois entregar para a iniciativa privada obter lucros com pedágio”.
ENTENDA O CASO
O que é a Avenida Liberdade?
Uma via expressa de aproximadamente 14 quilômetros que conecta a Alça Viária à Avenida Perimetral, atravessando Belém, Ananindeua e Marituba.
Quais são as principais denúncias?
Atropelamentos frequentes de animais silvestres e domésticos.
Fragmentação de corredores ecológicos.
Impactos sobre comunidades quilombolas e ribeirinhas.
Questionamentos sobre consulta prévia às populações tradicionais.
Problemas estruturais registrados durante a execução da obra.
Ações judiciais propostas pelo MPF e questionamentos da Defensoria Pública.
Quais animais têm sido encontrados mortos?
Há registros de capivaras, lontras, quatis, cobras, aves, cães e outras espécies silvestres e domésticas.
O que defendem ambientalistas?
Monitoramento permanente da fauna.
Divulgação pública dos dados de atropelamentos.
Ampliação e avaliação das passagens de fauna.
Cercamentos direcionadores.
Redução da velocidade em trechos críticos.
Recuperação de corredores ecológicos.
Fiscalização ambiental permanente.
O desafio
O debate sobre a Avenida Liberdade deixou de ser apenas uma discussão sobre trânsito. Hoje, envolve desenvolvimento, preservação ambiental, direitos das comunidades tradicionais e responsabilidade do poder público na execução de grandes obras. A forma como esses problemas serão enfrentados determinará se a avenida será lembrada como um marco da mobilidade ou como um exemplo de infraestrutura construída sem respostas suficientes aos seus impactos sociais e ambientais.
(Matéria em atualização)



















Essa Av Liberdade é uma farsa dos Barbalhos causando enorme violência ambiental e social para financiar construtoras e transportadoras.