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REPORTAGEM ESPECIAL | Avenida Liberdade: a estrada das promessas, o corredor da morte

  • há 2 horas
  • 8 min de leitura

Obra símbolo do governo Helder Barbalho/Hana Ghassan é marcada por denúncias de atropelamentos de animais, impactos sobre quilombolas e ribeirinhos, ações judiciais e questionamentos sobre seu modelo de desenvolvimento


Visão aérea da Avenida Liberdade - Imagem: Augusto Miranda/Ag. Pará
Visão aérea da Avenida Liberdade - Imagem: Augusto Miranda/Ag. Pará

 

BELÉM (PA) — Vendida como a maior obra de mobilidade urbana da história recente do Pará, a Avenida Liberdade passou a simbolizar também um dos maiores conflitos socioambientais da Região Metropolitana de Belém. Poucos meses após sua entrega, a rodovia acumula denúncias de mortes frequentes de animais silvestres e domésticos por atropelamento, reclamações de comunidades tradicionais atingidas pelo empreendimento, questionamentos do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública e críticas de ambientalistas que afirmam que os impactos previstos durante o licenciamento continuam sem resposta adequada.

 

Ao longo dos cerca de 14 quilômetros da via, animais como capivaras, lontras, quatis, cobras, e cães são encontrados mortos com frequência. As imagens compartilhadas por moradores nas redes sociais e por protetores da fauna transformaram a avenida em um símbolo da dificuldade de conciliar grandes obras de infraestrutura com a preservação da biodiversidade amazônica.

 

A situação revela uma contradição. A mesma obra apresentada pelos governos de Helder Barbalho (MDB) e de sua sucessora, Hana Ghassan (MDB), como exemplo de desenvolvimento e modernização passou a ser associada por parte da população a um cenário de destruição ambiental, conflitos fundiários e perda de biodiversidade.

 

A promessa de revolucionar a mobilidade

 

Planejada para ligar a Alça Viária à Avenida Perimetral, integrando Belém, Ananindeua e Marituba, a Avenida Liberdade foi anunciada como solução para reduzir congestionamentos históricos da BR-316 e facilitar o deslocamento entre a capital e o interior.

 

O Governo do Pará sustentou que mais de dois milhões de pessoas seriam beneficiadas pela nova ligação viária, além de destacar ganhos econômicos decorrentes da melhoria da logística regional.

 

A obra rapidamente tornou-se uma das principais vitrines da gestão Helder Barbalho/Hana Ghassan que concluiu e entregou o empreendimento mantendo o discurso de modernização da infraestrutura estadual.

 

Entretanto, desde o início das obras, organizações ambientais, pesquisadores e comunidades tradicionais alertavam para os impactos que poderiam ocorrer caso não fossem adotadas medidas robustas de mitigação ambiental.

 

Uma estrada construída sobre corredores naturais da fauna

 

Imagem: Arte G1
Imagem: Arte G1

Grande parte da Avenida Liberdade atravessa áreas anteriormente ocupadas por vegetação contínua.

 

Esses fragmentos funcionavam como corredores naturais utilizados diariamente por inúmeras espécies da fauna amazônica.

 

Com a abertura da rodovia, o habitat foi dividido.

 

Os animais continuam tentando alcançar áreas de alimentação, reprodução e abrigo, mas agora encontram uma pista de alta velocidade entre esses ambientes.

 

O resultado é visível.

 

Os atropelamentos se repetem quase diariamente.

 

Capivaras, lontras, quatis, cobras, e outros animais aparecem mortos sobre o asfalto ou às margens da estrada.

 

Além da perda imediata, especialistas ouvidos pelo Portal Info.Revolução alertam para impactos ecológicos mais amplos, como a redução da diversidade genética das populações, interrupção de rotas naturais de deslocamento e desequilíbrio ecológico.

 

A morte de predadores, dispersores de sementes e controladores naturais de pragas altera cadeias alimentares inteiras.

 

Passagens de fauna existem, mas são suficientes?

 

Animais atropelados na Avenida Liberdade: 1) Capivara 2) Lontra 3) Tamanduá Mirim - Imagens: Redes Sociais

O Governo do Pará informou que o projeto prevê 34 passagens de fauna, sendo estruturas aéreas e subterrâneas destinadas a permitir a travessia segura dos animais.

 

Entretanto, especialistas ressaltam que a simples instalação dessas estruturas não garante sua eficácia.

 

Para funcionarem adequadamente, elas precisam ser acompanhadas por cercamentos direcionadores, monitoramento permanente, manutenção contínua e estudos técnicos que confirmem sua utilização pelas espécies locais.

 

Até o momento, a recorrência de atropelamentos indica que as medidas adotadas podem não estar sendo suficientes para evitar a mortalidade registrada na rodovia.

 

Quando o progresso chega sem ouvir quem vive no território

 

Comunidade afetada - Imagem Oswaldo/Amazônia Latitude
Comunidade afetada - Imagem Oswaldo/Amazônia Latitude

As críticas à Avenida Liberdade não se limitam aos impactos ambientais.

 

Comunidades ribeirinhas e quilombolas denunciam que sofreram prejuízos profundos durante a implantação da obra.

 

Na comunidade Nossa Senhora dos Navegantes, famílias afirmam que a construção alterou a dinâmica dos igarapés, dificultou a pesca artesanal e comprometeu atividades tradicionais desenvolvidas há décadas.

 

No Quilombo do Abacatal, moradores denunciam danos ambientais, dificuldades de acesso e demora na implementação de medidas compensatórias prometidas pelo Estado.

 

Para essas populações, a obra significou mudanças profundas em seu modo de vida.

 

Defensoria e MPF apontam falhas

 

A Defensoria Pública do Estado do Pará questionou a ausência de consulta livre, prévia e informada às comunidades tradicionais, procedimento previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário.

 

Posteriormente, o Ministério Público Federal também ajuizou ações questionando aspectos da implantação da rodovia.

 

Entre as denúncias apresentadas estão supressão de vegetação, destruição de áreas produtivas, demolições, insegurança fundiária e impactos sobre comunidades tradicionais que dependem da floresta, dos rios e dos igarapés para sobreviver.

 

O MPF também demonstrou preocupação com o isolamento físico provocado pela rodovia, que pode dificultar o acesso das comunidades às áreas de cultivo, pesca e extrativismo.

 

Mais que mobilidade, um corredor logístico

 

Embora o discurso oficial tenha priorizado a melhoria do trânsito da Região Metropolitana, pesquisadores e movimentos socioambientais argumentam que a Avenida Liberdade também fortalece o corredor logístico entre a Região Metropolitana e a Alça Viária, facilitando o transporte de cargas em direção ao Porto de Vila do Conde.

 

Para esses grupos, a população recebeu a promessa de uma obra voltada à mobilidade urbana, enquanto os benefícios econômicos alcançam também grandes cadeias logísticas e empreendimentos privados.

 

Esse debate permanece aberto.

 

Problemas estruturais reforçam críticas

 

Erosão provoca cedimento do asfalto na Avenida Liberdade - Imagens: Redes sociais.
Erosão provoca cedimento do asfalto na Avenida Liberdade - Imagens: Redes sociais.

Mesmo antes da conclusão definitiva, a obra registrou episódios de erosão, rompimento de bueiros, alagamentos e cedimento do pavimento.

 

Moradores chegaram a realizar manifestações cobrando providências.

 

Os problemas ampliaram o questionamento sobre a qualidade da execução da obra e sobre a necessidade de fiscalização permanente.

 

A responsabilidade política

 

Governadora Hana Ghassan e o ex-governador Helder Barbalho - Wagner Santana/Arquivo
Governadora Hana Ghassan e o ex-governador Helder Barbalho - Wagner Santana/Arquivo

A Avenida Liberdade dificilmente pode ser dissociada dos governos do MDB.

 

Foi durante a gestão de Helder Barbalho que a obra ganhou prioridade política, recursos públicos e projeção institucional.

 

A conclusão e inauguração ocorreram sob o governo Helder Barbalho/Hana Ghassan, que assumiram “paternidade” e a “maternidade” do empreendimento.

 

Por isso, as críticas dirigidas ao empreendimento também alcançam seus principais patrocinadores políticos. Segundo fontes políticas ouvidas pelo Portal Info.Revolução, o tema deverá ganhar espaço no debate público e ser amplamente explorado durante as eleições de outubro.

 

“Se Helder Barbalho e Hana Ghassan reivindicam os méritos pela entrega da obra, também precisam responder pelas consequências decorrentes de sua implantação”, afirmou uma fonte ouvida pela reportagem.

 

A recorrência de atropelamentos de animais, os questionamentos apresentados por órgãos de controle, as reclamações das comunidades tradicionais e os conflitos socioambientais demonstram que a inauguração da avenida não encerrou os problemas.

 

Ao contrário, abriu uma nova etapa em que o Estado precisa demonstrar capacidade de corrigir falhas, ampliar medidas de proteção ambiental e reparar os impactos provocados às populações atingidas.

 

Ignorar esses sinais significa transformar uma obra concebida para melhorar a mobilidade em um exemplo permanente de como grandes projetos públicos podem perder legitimidade quando deixam em segundo plano a proteção da biodiversidade e os direitos das pessoas que vivem nos territórios afetados.


O Portal Info.Revolução perguntou a lideranças políticas  qual é a avaliação que tinham sobre a Avenida Liberdade após sua inauguração e se, na opinião deles, os impactos ambientais, a morte de animais silvestres, os prejuízos às comunidades tradicionais e os problemas de infraestrutura vêm sendo devidamente enfrentados pelo Governo do Pará. Confira as respostas:

Vanuza Cardoso - Liderança do território Quilombola do Abacatal
Vanuza Cardoso - Liderança do território Quilombola do Abacatal - Imagem: Arquivo Pessoal
Vanuza Cardoso - Liderança do território Quilombola do Abacatal - Imagem: Arquivo Pessoal

"Os problemas já eram evidentes antes da inauguração. Ainda assim, a Avenida Liberdade foi entregue à população mesmo apresentando falhas na qualidade da obra. Bastaram alguns meses para surgirem problemas graves, como o desabamento de trechos da pista, colocando em xeque milhões de reais investidos no empreendimento.


Acredito que esses impactos poderiam ter sido evitados. No território quilombola do Abacatal, por exemplo, o projeto inicial foi alterado quatro vezes e, mesmo assim, o resultado foi o caos que estamos vendo hoje. As mortes de animais silvestres, os impactos ambientais e as profundas mudanças na vida das comunidades localizadas ao longo do percurso da Avenida Liberdade demonstram que o governo do Estado tinha conhecimento dos riscos e, ainda assim, levou adiante um empreendimento que deixou um rastro de destruição e evidenciou situações que muitos moradores classificam como racismo ambiental." 

Marco Antônio Corrêa Mota - Indigenista, Coord. de Projetos - Rede FAOR
Marco Antônio Corrêa Mota - Indigenista, Coord. de Projetos - Rede FAOR - Imagem: Arquivo Pessoal
Marco Antônio Corrêa Mota - Indigenista, Coord. de Projetos - Rede FAOR - Imagem: Arquivo Pessoal

“Na verdade, o problema principal vem antes da inauguração da obra. A falta de consulta prévia, livre e  informada das comunidades atingidas pelo empreendimento. Depois disso, tudo é problema. Tudo é atropelamento. Tudo é ilegalidade.


De maneira nenhuma. Hana só dá seguimento para os crimes cometidos por Helder. Nenhuma ação que ela diz que faz, pode diminuir o tamanho do desastre ambiental que é essa rodovia”.

Auricélia Arapium - Liderança Indígena do Baixo Tapajós

Auricélia Arapium - Liderança Indígena do Baixo Tapajós - Imagem: Arquivo Pessoal
Auricélia Arapium - Liderança Indígena do Baixo Tapajós - Imagem: Arquivo Pessoal

“A obra, por si só, já é um problema, porque vai na contramão do debate mundial sobre alternativas ao aquecimento global. Não será derrubando floresta, assoreando igarapés, matando animais, desrespeitando comunidades tradicionais e priorizando automóveis que enfrentaremos a crise climática e o El Niño. Além disso, foi uma obra eleitoreira, inaugurada às pressas, com materiais de baixa qualidade, que não resistiram às chuvas e nem a três meses de uso, revelando desperdício de dinheiro público.


Não estão sendo enfrentados. Pelo contrário, as medidas do governo do Pará estimulam esses impactos. Basta lembrar a atuação de Helder Barbalho na redução da Floresta Nacional do Jamanxim. Por isso digo que esse governo é uma farsa, assim como foi a COP30, transformada em balcão de negócios. O Estado segue priorizando agronegócio, mineração e grandes obras que passam por cima de povos indígenas e comunidades tradicionais. Até a mobilidade é falsa, pois imobiliza a fauna, a flora e os povos”.

 Livia Duarte - Deputada Estadual (PSOL)
Livia Duarte - Deputada Estadual (PSOL) - Imagem: Arquivo Pessoal
Livia Duarte - Deputada Estadual (PSOL) - Imagem: Arquivo Pessoal

“A Avenida Liberdade revela a política de governo barbalhista: excludente e violento. A obra ultrapassou R$ 450 milhões e foi entregue com problemas estruturais e deixou um passivo ambiental e social. Enquanto poucos lucram, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, população preta e moradores das periferias seguem pagando a conta.


O Governo do Estado ignora os impactos da própria obra. Animais seguem morrendo na estrada, denúncias de violações contra comunidades tradicionais continuam sem resposta e o discurso da sustentabilidade desmorona diante da destruição dos territórios e do desrespeito à população”.

 

Mauricio Matos - Servidor Público Estadual e Membro da Diretoria Colegiada do Sindicato dos Servidores do Ministério Público do Pará (SISEMPPA)

Mauricio Matos - Servidor Público Estadual e Membro da Diretoria Colegiada do Sindicato dos Servidores do Ministério Público do Pará (SISEMPPA)
Mauricio Matos - Servidor Público Estadual e Membro da Diretoria Colegiada do Sindicato dos Servidores do Ministério Público do Pará (SISEMPPA)

 “Após sua inauguração, está comprovado aquilo que já foi denunciado antes da execução da obra: a Av. Liberdade é uma farsa! O projeto foi vendido à população como sendo capaz de solucionar os problemas de engarrafamento na BR-316. Quem usou esta rodovia no mês de julho, constatou a grande mentira do governo Helder. Outra farsa foi a promessa de construir uma rodovia ecologicamente correta. A Liberdade seria uma via Classe 0, com cercas de contenção para a proteção da fauna, mas o atropelamento de animais silvestres e a presença de búfalos na pista comprovam que foram contadas mais mentiras.


O governo não vai solucionar os impactos sociais e ambientais da obra. Vai gastar milhões com dinheiro público e depois entregar para a iniciativa privada obter lucros com pedágio”.

ENTENDA O CASO 

O que é a Avenida Liberdade?

 

Uma via expressa de aproximadamente 14 quilômetros que conecta a Alça Viária à Avenida Perimetral, atravessando Belém, Ananindeua e Marituba.

 

Quais são as principais denúncias?

 

  • Atropelamentos frequentes de animais silvestres e domésticos.

  • Fragmentação de corredores ecológicos.

  • Impactos sobre comunidades quilombolas e ribeirinhas.

  • Questionamentos sobre consulta prévia às populações tradicionais.

  • Problemas estruturais registrados durante a execução da obra.

  • Ações judiciais propostas pelo MPF e questionamentos da Defensoria Pública.


Quais animais têm sido encontrados mortos?

 

Há registros de capivaras, lontras, quatis, cobras, aves, cães e outras espécies silvestres e domésticas.

 

O que defendem ambientalistas?

 

  • Monitoramento permanente da fauna.

  • Divulgação pública dos dados de atropelamentos.

  • Ampliação e avaliação das passagens de fauna.

  • Cercamentos direcionadores.

  • Redução da velocidade em trechos críticos.

  • Recuperação de corredores ecológicos.

  • Fiscalização ambiental permanente.

 

O desafio

 

O debate sobre a Avenida Liberdade deixou de ser apenas uma discussão sobre trânsito. Hoje, envolve desenvolvimento, preservação ambiental, direitos das comunidades tradicionais e responsabilidade do poder público na execução de grandes obras. A forma como esses problemas serão enfrentados determinará se a avenida será lembrada como um marco da mobilidade ou como um exemplo de infraestrutura construída sem respostas suficientes aos seus impactos sociais e ambientais.

 

(Matéria em atualização)


1 comentário

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Silvia Leticia
há uma hora
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Essa Av Liberdade é uma farsa dos Barbalhos causando enorme violência ambiental e social para financiar construtoras e transportadoras.

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