DIREITA E ESQUERDA E O “CHUTE” EM SILVIA WAIÃPI E NEIDINHA SURUÍ
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Há uma tradição política brasileira que atravessa ideologias, partidos, discursos e bandeiras: o indígena é muito bem-vindo à campanha, desde que não queira mandar na campanha.
Na fotografia, somos diversidade.
No palanque, somos representatividade.
No discurso, somos ancestralidade.
Na campanha, somos votos.
Mas, quando chega a hora de decidir quem efetivamente ocupará o espaço de poder, parece que alguém aperta o botão:
“Obrigado pela participação.”
Eis a velha e conveniente fórmula: o indígena pode ajudar a ganhar a eleição, mas não necessariamente pode disputar o poder.
O episódio envolvendo Neidinha Suruí expõe, mais uma vez, essa contradição.
Neidinha havia sido oficialmente lançada pelo PSB como candidata ao Senado por Rondônia. A convenção estadual havia aprovado sua candidatura em julho. Poucas semanas depois, porém, a Executiva Nacional do partido interveio no diretório estadual, anulou a convenção e suspendeu as candidaturas majoritárias em meio à reorganização da aliança política do PSB com o PT em Rondônia. (Folha de S.Paulo)
Neidinha afirmou que não foi consultada pelo presidente nacional do partido, João Campos, e classificou o episódio como violência política e de gênero. Segundo seu relato, sua posição contrária a apoiar o candidato do PT ao governo estadual teria contribuído para o rompimento. O PSB, por sua vez, apresentou outra justificativa: sustentou que as candidaturas precisavam ser submetidas previamente à direção nacional diante da nova composição partidária. (Folha de S.Paulo)
E aqui começa a parte verdadeiramente interessante.
Porque existe uma pergunta que ultrapassa Neidinha, PSB, PT, PL, direita ou esquerda: por que a presença indígena é tão celebrada enquanto ela é útil, mas se torna tão inconveniente quando o indígena passa a querer protagonismo?
A PLATEIA INDÍGENA
Durante décadas, lideranças indígenas foram chamadas para os bastidores da política brasileira.
Participam de reuniões.
Mobilizam comunidades.
Abrem portas.
Conquistam confiança.
Levam votos.
Defendem candidaturas.
Ajudam a construir narrativas de inclusão.
Fazem o trabalho pesado.
E, quando chega a hora do palco, aparece a velha placa:
“Vagas esgotadas.”
O caso de Neidinha tornou esse contraste particularmente visível.
Uma mulher indígena com trajetória consolidada na defesa dos povos indígenas, da Amazônia e do meio ambiente foi apresentada publicamente como candidata ao Senado. Depois, sua candidatura foi anulada pela direção nacional do próprio partido que a havia lançado. (Folha de S.Paulo)
É quase como convidar alguém para preparar o jantar, comprar os ingredientes, organizar a mesa e, quando chega a hora de comer, explicar:
“Desculpe, seu nome não estava na lista de convidados.”
A política partidária brasileira consegue produzir situações que nem a ficção ousaria escrever.
DIREITA E ESQUERDA: IDEOLOGIAS DIFERENTES, UM PROBLEMA QUE PODE SE REPETIR
É aqui que a discussão fica desconfortável.
Não se trata de dizer que direita e esquerda são literalmente a mesma coisa. Não são.
Possuem histórias, programas, ideologias e projetos políticos diferentes.
Mas existe uma questão que merece ser feita independentemente da ideologia: quando uma liderança indígena deixa de ser apenas símbolo e passa a disputar poder real, o partido continua defendendo sua candidatura com a mesma intensidade?
Essa é a pergunta que interessa.
Porque é muito fácil defender os povos indígenas quando isso rende discurso.
Mais difícil é aceitar indígenas disputando orçamento, mandato, influência, espaço institucional e poder de decisão.
Aí a conversa muda.
E talvez seja justamente aí que a velha política revele sua face mais conveniente.
O problema não seria necessariamente ser de direita ou de esquerda.
O problema seria querer o indígena como aliado eleitoral, mas não necessariamente como protagonista político.
SILVIA WAIÃPI E A MEMÓRIA DO ABANDONO POLÍTICO
O caso de Silvia Waiãpi também merece ser lembrado dentro desse debate, não como prova automática de uma tese, mas como parte de uma discussão maior sobre a relação entre lideranças indígenas e estruturas partidárias.
Sua trajetória política mostra como a aproximação entre uma liderança indígena e uma estrutura partidária pode mudar conforme mudam os interesses políticos.
E aqui está a questão central:
o que acontece com o indígena quando ele deixa de ser politicamente conveniente?
Porque o indígena não deveria ter prazo de validade eleitoral.
Não deveria existir enquanto é útil e desaparecer quando deixa de servir aos cálculos da legenda.
Não deveria ser convidado para emprestar sua imagem à diversidade e depois ser colocado no escanteio quando começa a exigir autonomia.
A experiência política indígena brasileira demonstra que aproximação partidária não significa necessariamente garantia de autonomia política.
E esse talvez seja o grande problema.
Quando uma liderança indígena entra em uma legenda, ela não deveria entregar junto sua autonomia, sua voz e sua capacidade de discordar.
Porque indígena não é decoração eleitoral.
Não é figurante.
Não é “quota cultural”.
Não é personagem para aparecer na fotografia segurando cocar enquanto outra pessoa decide o roteiro.
O INDÍGENA QUE SERVE PARA CONSEGUIR VOTO
Existe ainda uma ironia cruel.
Durante a campanha, o candidato indígena pode ser apresentado como símbolo de renovação.
Pode ser apresentado como representante da diversidade.
Pode ser usado para demonstrar que determinado partido “também ouve os povos originários”.
Pode ser colocado ao lado de dirigentes partidários para produzir uma bela fotografia institucional.
Mas, quando esse mesmo indígena decide dizer:
“Agora eu quero disputar.”
A máquina política parece descobrir subitamente que existem regras, alianças, acordos, convenções, estratégias, cálculos eleitorais e interesses maiores.
Interessante como esses “interesses maiores” quase sempre aparecem quando o indígena deixa de ser coadjuvante.
E ONDE ESTÃO AS VOZES INDÍGENAS?
Há ainda uma pergunta que incomoda tanto quanto a própria decisão contra Neidinha Suruí: onde estão algumas das principais lideranças indígenas quando uma mulher indígena denuncia violência política e de gênero?
Neidinha não fez uma reclamação trivial.
Ela afirmou publicamente que sua candidatura ao Senado foi barrada pela Executiva Nacional do PSB depois de uma mudança na composição política em Rondônia e acusou a direção partidária de violência de gênero. Segundo seu relato, ela não teria sido procurada pelo presidente nacional do partido antes da decisão. (Folha de S.Paulo)
E aqui surge um silêncio que merece ser questionado.
Não porque toda liderança indígena seja obrigada a concordar com Neidinha.
Democracia não é unanimidade.
Não porque toda mulher indígena tenha obrigação de defender outra mulher indígena simplesmente por compartilhar a mesma identidade.
Mas porque existe uma diferença entre discordar politicamente e não discutir publicamente um episódio que envolve justamente aquilo que tantas lideranças afirmam combater: a dificuldade de mulheres indígenas ocuparem espaços de poder.
E a pergunta precisa ser feita inclusive às parlamentares indígenas.
Onde estão as mulheres indígenas eleitas para ocupar o Parlamento quando outra mulher indígena denuncia que foi retirada de uma disputa majoritária?
Onde está a solidariedade política?
Onde está o debate?
Onde está a indignação?
Onde está, sobretudo, a discussão sobre a violência política contra mulheres indígenas?
Célia Xakriabá é uma das principais parlamentares indígenas do país e preside a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. Ela também já denunciou publicamente situações que classificou como violência política de gênero e violência contra indígenas. (X (formerly Twitter))
Mas, até o momento, não localizei uma manifestação pública específica dela sobre o episódio envolvendo Neidinha Suruí.
Isso não significa afirmar que Célia tenha deliberadamente escolhido o silêncio, tampouco que ela tenha obrigação de apoiar a candidatura de Neidinha.
Significa apenas que existe uma pergunta legítima a ser feita: quando uma mulher indígena denuncia violência política, por que a solidariedade entre mulheres indígenas não aparece com a mesma força que aparece em outras disputas?
E essa pergunta não é dirigida apenas a Célia, Joênia e Sônia.
É dirigida ao conjunto do movimento indígena.
Às parlamentares indígenas.
Às organizações.
Às lideranças.
A todos aqueles que transformaram a luta das mulheres indígenas em uma bandeira política.
Porque uma bandeira precisa ser testada justamente quando levantá-la custa alguma coisa.
O SILÊNCIO TAMBÉM COMUNICA
Não estou dizendo que todas as lideranças indígenas precisam apoiar Neidinha.
Muito menos que Célia Xakriabá, ou qualquer outra parlamentar, tenha obrigação de tomar partido em uma disputa interna do PSB.
Mas há uma questão maior.
Se uma mulher indígena denuncia violência política e de gênero, o movimento indígena não deveria, ao menos, discutir publicamente o caso?
Porque silêncio também produz efeitos políticos.
Quando uma liderança é atacada e ninguém pergunta o que aconteceu, a estrutura agradece.
Quando uma mulher é retirada de uma disputa e as demais mulheres permanecem sem se manifestar, o partido pode seguir seu caminho sem precisar responder à sociedade.
E quando o silêncio desaparece apenas quando a vítima pertence ao grupo político “certo”, temos um problema ainda maior.
A defesa dos direitos das mulheres indígenas não pode funcionar com carteirinha partidária.
Não pode haver uma versão da violência política quando o conflito acontece no campo adversário e outra quando ocorre dentro do próprio campo político.
Violência política não deveria mudar de nome conforme a legenda de quem está no poder.
A POLÍTICA TEM DOIS PESOS?
Talvez seja essa a parte mais desconfortável da história.
Quando uma mulher indígena sofre violência política praticada por um adversário ideológico, a denúncia rapidamente ganha manchetes, notas de solidariedade e discursos inflamados.
Mas quando o problema acontece dentro de uma estrutura política considerada “aliada”, a indignação parece andar mais devagar.
Muito mais devagar.
Será que a defesa da mulher indígena é um princípio?
Ou é uma ferramenta política?
Essa é uma pergunta que ninguém deveria temer.
Porque, se a resposta depender da legenda do agressor, então não estamos falando de princípio.
Estamos falando de conveniência.
QUANDO A REPRESENTATIVIDADE VIRA FIGURINO
Existe uma forma sofisticada de utilização política dos povos indígenas.
Não é necessariamente explícita.
É simbólica.
É estética.
É eleitoral.
O indígena aparece na fotografia.
O cocar aparece.
A palavra “ancestralidade” aparece.
A Amazônia aparece.
A diversidade aparece.
O discurso sobre inclusão aparece.
Só não aparece, com a mesma frequência, o indígena decidindo.
Porque uma coisa é colocar um indígena no palanque.
Outra é permitir que ele diga:
“Não concordo.”
Uma coisa é convidar para a campanha.
Outra é respeitar quando ele decide ter candidatura própria.
Uma coisa é pedir votos.
Outra é dividir poder.
E talvez essa seja a grande diferença entre representatividade de vitrine e participação política real.
O PALCO CONTINUA RESERVADO
O problema, portanto, não é apenas Neidinha.
É o modelo.
É a estrutura.
É a velha lógica segundo a qual os povos indígenas são convidados para participar da democracia, mas ainda encontram dificuldades quando querem ocupar efetivamente os centros de decisão.
E há uma diferença enorme entre participação e poder.
Participação é ser convidado.
Poder é poder decidir.
Participação é estar na fotografia.
Poder é escolher quem estará na fotografia.
Participação é ajudar a eleger.
Poder é também poder ser eleito.
E talvez seja justamente aí que esteja o incômodo.
PORQUE O INDÍGENA DEIXOU DE ACEITAR O PAPEL DE FIGURANTE
A política brasileira está diante de uma mudança inevitável.
As lideranças indígenas estão cada vez mais conscientes de que não precisam apenas ser utilizadas como ponte entre partidos e comunidades.
Elas podem ser candidatas.
Podem ser parlamentares.
Podem ocupar cargos executivos.
Podem disputar Senado.
Podem disputar governos.
Podem discordar.
Podem dizer não.
E, principalmente, podem deixar de trabalhar para eleger projetos políticos alheios sem exigir reciprocidade e autonomia.
Talvez seja esse o verdadeiro incômodo.
Porque, quando o indígena percebe que também pode ocupar o palco, a política deixa de ser uma fotografia de diversidade e começa a se transformar em disputa real por poder.
E aí a pergunta fica impossível de esconder: querem indígenas na política ou querem apenas indígenas ajudando políticos?
Essa diferença parece pequena.
Mas é gigantesca.
A FARINHA PODE SER DIFERENTE. O SACO, ÀS VEZES, PARECE O MESMO.
Direita e esquerda não são iguais.
Mas podem cometer o mesmo erro quando enxergam o indígena apenas como instrumento eleitoral.
Uma pode falar em liberdade.
Outra pode falar em justiça social.
Uma pode falar em conservação.
Outra pode falar em inclusão.
Mas, se ambas chegarem à mesma conclusão quando o indígena exige protagonismo, “agora não é conveniente”, então existe algo que precisa ser discutido.
Porque o problema não está apenas na ideologia.
Está na estrutura de poder.
Está na velha política de escolher quem pode chegar.
E, principalmente, de escolher quem pode permanecer.
A PERGUNTA QUE SOBRA
Talvez o caso Neidinha Suruí seja maior do que a própria Neidinha.
Talvez seja uma oportunidade para o movimento indígena brasileiro fazer uma pergunta incômoda a si mesmo.
Estamos do lado dos partidos ou das pessoas?
Estamos do lado da legenda ou da mulher?
Estamos do lado da conveniência eleitoral ou do princípio?
Estamos dispostos a defender uma mulher indígena apenas quando ela está no campo político que consideramos correto?
Ou estamos dispostos a defender o princípio mesmo quando ele nos obriga a confrontar nossos próprios aliados?
Porque, se a resposta depender do partido envolvido, então o problema não é apenas a direita.
Nem apenas a esquerda.
É a transformação da causa indígena em instrumento de disputa partidária.
E talvez seja justamente por isso que o caso Neidinha Suruí seja tão importante.
Não porque ela precise ser unanimemente defendida.
Mas porque sua situação nos obriga a perguntar algo que ninguém deveria ter medo de perguntar: quando uma mulher indígena finalmente chega ao palco da política, quem está disposto a permanecer ao lado dela quando os holofotes se apagam e começa a disputa pelo poder?
Porque defender mulheres indígenas somente quando elas são úteis para o próprio projeto político não é representatividade.
É conveniência com cocar.
E talvez esteja na hora de os povos indígenas deixarem de aceitar o papel de figurantes na democracia brasileira.
Porque quem carrega o voto, mobiliza o território e ajuda a construir a vitória também tem o direito de decidir quem sobe ao palco.
E, sobretudo, de exigir que, quando chegar sua vez de subir, ninguém possa simplesmente apagar seu nome do cartaz.














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