O protagonismo das mulheres indígenas: quando defender a Amazônia é fazer política
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Um dos maiores desafios da democracia brasileira continua sendo a baixa participação efetiva das mulheres na política. Embora elas representem a maioria do eleitorado, ainda ocupam uma parcela reduzida dos cargos eletivos. O problema não está apenas na quantidade de candidaturas, mas na forma como muitas delas são construídas. Em diversos municípios, ainda é comum que mulheres sejam filiadas ou registradas como candidatas apenas para cumprir a cota de gênero exigida pela legislação eleitoral, sem estrutura, apoio partidário ou reais condições de disputar uma eleição. A presença feminina, muitas vezes, acaba sendo tratada como uma formalidade burocrática, e não como um compromisso com a igualdade de representação.
Nesse contexto, candidaturas femininas que nascem da militância, da atuação comunitária e da liderança social assumem um significado ainda mais relevante. Elas rompem com a lógica da participação simbólica e afirmam o direito das mulheres de ocupar a política como protagonistas, formuladoras de propostas e agentes de transformação. No caso das mulheres indígenas, esse protagonismo ganha uma dimensão ainda maior, pois reúne duas lutas históricas: a superação da desigualdade de gênero e a afirmação dos direitos dos povos originários. Não se trata apenas de preencher uma vaga prevista em lei, mas de levar aos espaços de decisão vozes que conhecem, por experiência própria, os desafios da defesa dos territórios, da educação, da cultura, do meio ambiente e da vida.
As mulheres indígenas já provaram que seu lugar também é nos espaços de decisão. Nos últimos anos, lideranças como Joenia Wapichana e Célia Xakriabá romperam barreiras históricas e demonstraram que a política institucional pode, e deve ser ocupada por quem conhece a Amazônia, os territórios e os povos originários a partir da própria vivência. Agora, esse movimento ganha novos contornos no oeste do Pará com as candidaturas de Alessandra Munduruku e Auricélia Arapiuns. Mais do que ampliar a representação indígena, elas simbolizam a continuidade de uma caminhada construída nas aldeias, nas mobilizações sociais e nas lutas em defesa da floresta, dos rios e dos direitos coletivos. Não chegam à política para aprender a resistir; chegam porque fizeram da resistência sua principal escola de liderança.

Alessandra Munduruku, pré-candidata à Câmara dos Deputados, e Auricélia Arapiuns, pré-candidata à Assembleia Legislativa do Pará, não surgem como lideranças fabricadas em tempos eleitorais. Elas chegam às eleições depois de anos enfrentando o garimpo ilegal, a expansão desenfreada do agronegócio, a ausência do Estado e os grandes empreendimentos que ameaçam o rio Tapajós e os povos que dele dependem para viver.
Num cenário político em que muitos candidatos constroem discursos ambientais durante as campanhas, Alessandra e Auricélia carregam algo que não pode ser improvisado: a experiência. Seu lugar de fala nasce da existência. A defesa da floresta não é bandeira eleitoral; é condição de sobrevivência.

Esse histórico ficou evidente quando ambas estiveram entre as principais lideranças da mobilização que ocupou, durante 33 dias, o terminal da multinacional Cargill, em Santarém. A ocupação não foi um ato isolado de protesto. Foi uma resposta à tentativa de transformar rios amazônicos em corredores logísticos para acelerar a exportação de commodities.
O movimento denunciava o Decreto nº 12.600/2025, que incluía os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, abrindo caminho para concessões privadas e obras de dragagem capazes de alterar profundamente o equilíbrio ambiental desses ecossistemas. A mobilização cresceu, reuniu milhares de indígenas de diversos povos, resistiu à pressão judicial e obrigou o governo federal a revogar o decreto. Foi uma demonstração de que a organização popular continua sendo capaz de alterar decisões de Estado. Mas essa não foi a primeira vitória construída pelas duas lideranças.
Elas também estiveram à frente da mobilização que levou à revogação da Lei Estadual nº 10.820, no Pará, proposta que substituía professores presenciais do Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME) e do Sistema de Organização Modular de Ensino Indígena (SOMEI) por mecanismos de Educação a Distância. Na prática, tratava-se de uma medida que ignorava as especificidades culturais, linguísticas e territoriais das comunidades indígenas e tradicionais. A revogação da lei mostrou que educação, para esses povos, não é apenas acesso à escola; é também preservação da identidade e do direito de aprender a partir da própria realidade.

Essas vitórias ajudam a compreender por que suas candidaturas possuem um peso político diferente. Não se trata apenas de ampliar a participação feminina ou indígena nos espaços institucionais, embora isso, por si só, já represente um avanço democrático. Trata-se de levar para o centro das decisões pessoas que conhecem, na pele, os impactos provocados por projetos como a Ferrogrão, pela expansão dos portos graneleiros no Tapajós, pela pressão constante sobre a Floresta Nacional do Jamanxim e pelo avanço do agronegócio sobre territórios tradicionalmente ocupados.
A Ferrogrão, frequentemente apresentada como símbolo do progresso econômico, é vista pelos povos indígenas como parte de um modelo que prioriza o escoamento da soja acima da proteção dos rios, da biodiversidade e das populações tradicionais. Para quem vive na Amazônia, desenvolvimento não pode significar apenas aumento das exportações enquanto comunidades perdem suas águas, suas terras e seus modos de vida.
É justamente essa divergência que Alessandra Munduruku e Auricélia Arapiuns levam para o debate eleitoral. Elas defendem outro conceito de desenvolvimento: aquele em que a floresta permanece em pé, os rios continuam vivos e os povos tradicionais participam das decisões que afetam seus territórios, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
Há quem enxergue suas candidaturas apenas como representação identitária. Esse olhar é limitado. O que elas representam é a tentativa de alterar uma lógica histórica em que a Amazônia sempre foi governada por interesses externos. Pela primeira vez, a própria floresta apresenta suas candidatas.
Protagonismo de mulheres e lidenranças indigenas na luta em defesa da natureza, do meio ambiente, dos territórios contra as multinacionais e o agronegócio - da esquerda para direita: Auricelia Arapiuns, Txai Surui, Mariana Tikuna, Neidinha Surui, Alessandra Munruruku, Margareth Maytapu, Inory Kanamari, Raquel Tupinambá. Imagem Central em debate na Cúpula dos Povos promovido pela Liga Internacional Socialista: Kin Surui, Alanna Tupinambá, Txai Sarui, Inory Kanamari, Mariana Tikuna
No fundo, a grande pergunta que essas mulheres colocam para a sociedade brasileira é simples, mas profundamente incômoda: quem deve decidir o futuro da Amazônia? Aqueles que enxergam seus rios como rotas de exportação ou aqueles que reconhecem nesses mesmos rios a fonte da vida, da memória e da continuidade de seus povos?
Quando mulheres indígenas chegam às urnas, não levam apenas seus nomes. Levam consigo séculos de resistência, a voz dos ancestrais, a defesa do Tapajós e a esperança de que o Brasil finalmente compreenda que preservar a Amazônia não é impedir o desenvolvimento. É garantir que exista futuro.
































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