Quem é Beatriz Morrone a "nova secretária" da Educação de Belém
- contatoinforevollu
- há 5 dias
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A nomeação de Beatriz Morrone para o comando da Secretaria Municipal de Educação de Belém (SEMEC) não pode ser tratada como um simples rearranjo administrativo. Trata-se de uma escolha política, carregada de simbolismo e de sinais claros sobre o projeto educacional que a gestão do prefeito Igor Normando (MDB) pretende aprofundar na capital paraense.

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Quem é Beatriz Morrone e de onde ela vem
Natural de São Paulo e formada em Jornalismo pela PUC-SP, Beatriz Morrone não possui trajetória na docência nem histórico de atuação direta na educação básica pública. Sua experiência está vinculada à gestão educacional enquanto formuladora e operadora de políticas, e não à vivência pedagógica cotidiana das escolas.
Antes de assumir a SEMEC, Morrone ocupava o cargo de secretária adjunta pedagógica e integrou a equipe do então secretário estadual de Educação, Rossieli Soares, no governo Helder Barbalho.
Rossieli foi exonerado no início de 2025 após uma forte greve estadual da educação e passou a ser amplamente rejeitado por professores, estudantes e comunidades escolares, sendo rotulado por amplos setores como “inimigo da educação pública”. Sua gestão ficou marcada por cortes de direitos, centralização administrativa e adoção de modelos pedagógicos padronizados, distantes da realidade amazônica. A vinculação política e técnica de Beatriz Morrone a esse projeto já está servindo de alerta entre trabalhadores da educação em Belém.
O CEMEP como marca de uma concepção autoritária de educação
Um dos pontos centrais da trajetória de Morrone é sua relação com o Centro de Mídias da Educação Paraense (CEMEP), que substituiu o Sistema Educacional Interativo (SEI). O projeto foi apresentado como inovação tecnológica, mas, na prática, significou a substituição do ensino presencial por aulas transmitidas a partir de estúdios urbanos para povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas.
A Justiça Federal foi categórica: o modelo é ilegal. A decisão reconheceu que o CEMEP foi implementado sem regulamentação formal, sem autorização do Conselho Estadual de Educação e, sobretudo, sem consulta livre, prévia e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trata-se de uma violação grave de direitos coletivos — e não de um mero detalhe burocrático.
O Ministério Público foi além ao apontar que o CEMEP reproduz uma lógica urbanocêntrica, desconsidera saberes territoriais e rompe com as diretrizes da Educação do Campo previstas na LDB. O que se vendeu como modernização foi, na prática, um telecurso imposto, que desmobiliza comunidades, precariza o trabalho docente e esvazia o sentido pedagógico da escola nos territórios tradicionais.
Janeiro de 2025: a resposta indígena ao autoritarismo
Não por acaso, em janeiro de 2025, povos indígenas ocuparam a sede da Secretaria de Educação do Estado do Pará (SEDUC). A ocupação foi uma resposta direta a esse modelo de educação imposto de cima para baixo, sem diálogo, sem consulta e sem respeito às realidades locais.
O protesto expôs a rejeição das comunidades à lógica de que povos tradicionais devem apenas “receber conteúdo”, enquanto decisões estratégicas são tomadas por tecnocratas distantes dos territórios. Esse episódio é central para compreender o significado político da chegada de Beatriz Morrone à SEMEC: trata-se de uma gestora associada a um projeto educacional já rejeitado socialmente e agora questionado judicialmente.
Educação municipal em greve
Morrone assume a Secretaria Municipal de Educação em meio a uma greve geral da educação, que já ultrapassa dez dias. A paralisação é resultado direto do chamado “pacote de maldades”, aprovado pela Câmara Municipal em dezembro de 2025, que retira direitos históricos, ataca a carreira docente e aprofunda a precarização do trabalho na rede municipal.
Segundo a professora Silvia Letícia, da coordenação do SINTEPP Belém, “Ela substitui Patrick Trajan, cuja gestão foi amplamente criticada por desmontar mecanismos de gestão democrática e aprofundar conflitos com nossa categoria. O desafio colocado à nova secretária é claro: ou revoga as medidas que atacam nossos direitos ou aprofunda o confronto. Não vamos parar até revogarmos a Lei nº 10.266 e termos nossos direitos restituídos como trabalhadoras e trabalhadores da educação”.
O que está em jogo
Para Madalena Gonçalves, também da coordenação do SINTEPP Belém, “a escolha de Beatriz Morrone sinaliza continuidade, não ruptura. Continuidade de um modelo tecnocrático, centralizador, pouco afeito ao diálogo com professores, estudantes e comunidades. Um modelo que já demonstrou, no âmbito estadual, sua incapacidade de respeitar direitos, territórios e as especificidades amazônicas”.
Na mesma linha, a professora Miriam Sodré, da coordenação do sindicato, é categórica: “A educação não precisa de mais gestão de gabinete. Precisa de compromisso com a escola pública, com a gestão democrática, com os trabalhadores da educação e com os povos que historicamente defendem seus territórios e saberes”.
A pergunta que permanece é simples e incômoda: a SEMEC será espaço de diálogo e reconstrução ou laboratório para a repetição de um projeto já condenado nas ruas e nos tribunais?

O cerco se fecha: educação, assistência e saúde em luta
Beatriz Morrone assume a SEMEC no olho do furacão. A greve da educação se mantém firme contra o “pacote de maldades”, mas o cenário de conflito tende a se ampliar. Servidores da Assistência Social também cruzaram os braços, denunciando descaso e desvalorização.
No horizonte, o risco político para o prefeito Igor Normando é ainda maior: os trabalhadores da Saúde já sinalizam adesão ao movimento, o que pode levar a uma paralisação em cadeia dos serviços públicos municipais.
O recado das ruas é claro: sem diálogo, sem direitos e sem respeito, não haverá normalidade.
(Matéria em atualização)
















FORA BIA MORRONE!
Obrigada pelo apoio jornalístico. Exigimos a Revogação das medidas do prefeito que atacam a profissionais da educacao educação e aluno.