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Do alto do cargo à porta da rua: como a pressão popular derrubou Rossieli

Ocupação Indígena da SEDUC/FEVEREIRO/2025 e Greve dos Trabalhadores em Educação exigiu a saída de Rossieli Soares - Imagem: Douglas Diniz/Info.Revolução 
Ocupação Indígena da SEDUC/FEVEREIRO/2025 e Greve dos Trabalhadores em Educação exigiu a saída de Rossieli Soares - Imagem: Douglas Diniz/Info.Revolução 

Ocupação Indígena da SEDUC/FEVEREIRO/2025 e Greve dos Trabalhadores em Educação exigiu a saída de Rossieli Soares - Imagem: Douglas Diniz/Info.Revolução 


 

Num sábado abafado de junho, enquanto a cidade de Belém ainda digeria o sabor amargo de mais um dia de manifestações dos servidores municipais em busca de um reajuste justo, enfrentando a indiferença de um poder público que não escuta nem seus próprios trabalhadores, uma postagem discreta nas redes sociais anunciava: Rossieli Soares deixa a Secretaria de Educação do Pará.


Não houve coletiva de imprensa, nem discurso de despedida. Apenas uma legenda ensaiada, dessas que cabem bem em qualquer rede social: “dever cumprido”.


Foi nessa mesma Belém onde, meses antes, centenas de indígenas ocuparam a Seduc, exigindo o que para muitos é pouco, mas para eles é tudo: respeito. Foi nesse mesmo Pará onde escolas foram trocadas por telas, professores por mediadores, e o território vivo por uma transmissão morta.


Quem acompanha essa história desde o início —como eu, como você que lê agora — sabe que essa saída não é fim. É consequência. É o corpo de uma gestão que sangrou por dentro, corroída por tecnocratas que ousaram pensar a educação amazônida sem a Amazônia dentro.


Lideranças Indigenas exigiram na ocupação da SEDUC a revogação da Lei 10.820 e a saída de Rossieli Soares -  Imagem: Douglas Diniz/Info.Revolução 


Rossieli Soares, figurinha carimbada dos bastidores do MEC desde os tempos do golpe parlamentar de 2016, trouxe ao Pará uma gestão marcada por promessas de inovação, mas regada à mesma receita de sempre: centralização, controle e desresponsabilização do Estado em relação às populações marginalizadas.


Ex-ministro da Educação de Michel Temer, Rossieli representava a continuidade de uma política de empresariamento da educação, marcada por contratos milionários com empresas privadas, padronizações que apagam identidades e uma lógica de gestão que valoriza o dado, não o aluno.


A cereja do bolo foi a Lei 10.820/2024, uma verdadeira aberração jurídica e social, que atropelou as realidades indígenas, quilombolas e rurais com a arrogância de quem acha que basta distribuir Wi-Fi e videoaula para “incluir” a Amazônia profunda.


A educação a distância imposta pela lei não era um projeto educacional. Era um projeto de exclusão disfarçado de modernidade. A elite gestora, acostumada a ver o mundo de suas salas refrigeradas, tentou empurrar goela abaixo um modelo incompatível com o cotidiano de milhares de estudantes que sequer têm acesso à energia elétrica. Na prática, a medida significava o abandono oficial do Estado às populações mais vulneráveis.

A reação veio à altura da ofensa: cerca de 300 indígenas de 22 etnias, acompanhados por quilombolas e movimentos populares, ocuparam a sede da Seduc por quase um mês. Um grito coletivo contra o etnocídio educacional em curso. Não foi apenas uma manifestação; foi resistência. Foi pedagogia da insurgência.


A resposta do governo estadual? Silêncio, omissão e cálculo político. Helder Barbalho, que se apresenta como progressista quando lhe convém, hesitou até onde pôde. Só após a repercussão nacional, a entrada da Apib no STF e a paralisação dos trabalhadores da educação organizada pelo Sintepp é que a lei foi revogada. A exoneração de Rossieli veio como gesto tardio de apaziguamento.


A queda que veio do povo  e não das cúpulas


Imprensa Independente - Imagens: Redes Sociais/Info.Revolução

Foi o jornalismo comprometido que desmascarou o Rossieli. Foi a mobilização popular que colocou um freio nesse retrocesso. A ocupação da sede da Seduc não foi só um protesto, foi um levante. Um grito ancestral contra a imposição de um modelo que não reconhece territórios, culturas e formas próprias de ensinar e aprender.

Educadores se levantaram em greve, na linha de frente, denunciando o apagamento da presença do Estado onde ele é mais necessário. Não foi o governo que decidiu recuar por bom senso. Foi a força da organização popular que empurrou o sistema para trás.


A Amazônia já viu de tudo, mas também sabe reconhecer quando um gestor abandona o barco não por altruísmo, mas porque foi colocado contra a parede por quem nunca foi convidado para a mesa de decisão: o povo.


Por tudo isso, a exoneração de Rossieli, anunciada com tom melancólico e triunfante nas redes sociais, não é um simples episódio administrativo. É, na verdade, mais um capítulo revelador da guerra silenciosa – e por vezes barulhenta – entre dois projetos de sociedade que disputam o coração da Amazônia: de um lado, o projeto da elite tecnocrática que transforma a educação em produto de mercado; de outro, o clamor dos povos da floresta, que exigem respeito à sua existência, aos seus territórios e modos de vida.


A exoneração de Rossieli Soares não foi apenas um “fim de ciclo” ou “decisão técnica”, como alguns tentaram pintar. Ela é o reflexo direto de uma luta travada por baixo, nas comunidades indígenas, nos territórios quilombolas, nas escolas de beira de rio, nas ocupações e nas greves.

A saída de Rossieli é uma conquista. Mas não é o fim da luta. O que está em jogo é qual projeto de educação vai prevalecer na Amazônia: o que vem empacotado em discursos frios e tablets inoperantes, ou o que nasce do território, da ancestralidade e da escuta ativa?


A floresta falou. A ocupação resistiu. A greve ensinou. E tudo isso nos mostra que educação popular não é “alternativa”: é a única resposta possível diante de um Estado que insiste em nos calar com decretos.


Agora, a pressão popular inverte a equação. Sindicatos, professores, estudantes, movimentos indígenas e organizações sociais exigem mais que uma troca de nome na cadeira de secretário: exigem investigação, responsabilização e, para muitos, prisão. Porque há suspeitas demais, contratos demais, silêncio demais — e um povo que cansou de ser educado apenas para obedecer.

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A exoneração de Rossieli Soares é nossa. E ela mostra que a organização popular, a desobediência criativa, a denuncia do jornalismo comprometido e a luta coletiva ainda são as ferramentas mais poderosas para enfrentar os donos do poder. Que esse seja só o começo de uma nova caminhada: por uma educação que respeite as águas, as matas e os saberes dos povos que aqui vivem há séculos.

A luta por uma educação pública, popular e anticolonial na Amazônia está só começando. E o povo já deixou claro: não vai mais aceitar imposições em silêncio.


Ailane Brito: Técnica em agroecologia, radialista, pedagoga em formação pela UFOPA. Atua na área de sustentabilidade e educação, conciliando conhecimento técnico com música e poesia.
Ailane Brito: Técnica em agroecologia, radialista, pedagoga em formação pela UFOPA. Atua na área de sustentabilidade e educação, conciliando conhecimento técnico com música e poesia.

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2 comentários

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16 de jun.

Adiaram a derrubada de Rosieli, mas isso não diminui o tamanho da vitória dos povos indígenas e dos docentes do Pará. É vitória total. Fora Rossieli.

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Convidado:
16 de jun.
Respondendo a

E que fique registrado: não foi gentileza, foi pressão. Não foi saída estratégica, foi retirada forçada. Porque quando o povo se levanta, nenhuma farsa se sustenta.

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