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Quando o mandato vira ameaça: violência política contra povos indígenas em Santarém

  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Imagem Reprodução
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Já se passaram vários dias desde aquele acontecimento. A rotina seguiu. O trânsito continuou. As redes sociais mudaram de assunto. Mas a cena ainda me choca. Não é apenas o fato em si que causa espanto, é o que ele simboliza. Um carro de luxo diante de corpos indígenas; um mandato diante de uma reivindicação coletiva; o ronco de um motor tentando se impor sobre vozes que historicamente precisaram gritar para serem ouvidas.


O vereador Malaquias José Mottin, do Partido Liberal, eleito para representar a população, foi acusado de tentar atropelar indígenas que ocupavam a unidade da Cargill em Santarém, com um Chevrolet Camaro conversível.


Os indígenas estavam em manifestação. A ocupação, ainda que incômoda para setores econômicos, é uma forma histórica e legítima de reivindicação social. Povos originários ocupam para existir, porque a história lhes ensinou que, quando não ocupam, são expulsos. O conflito fundiário na Amazônia nunca foi um detalhe; ele é parte estruturante do modelo de desenvolvimento imposto à região.

Quando um agente público reage com violência — ou é acusado de agir dessa forma — diante de um protesto indígena, a questão ultrapassa a esfera individual. Não é apenas sobre um vereador bolsonarista; é sobre a naturalização de uma retórica política que enxerga povos indígenas como obstáculo, e não como sujeitos de direitos.

A política deveria ser o espaço do diálogo. Do conflito mediado pela palavra. Do desacordo resolvido pela negociação institucional. Quando a resposta a uma manifestação é avançar com um veículo, ainda que não se tenha consumado uma tragédia maior, o gesto fala. E fala alto.


Em nota e em vídeos divulgados nas suas redes sociais, o vereador afirmou que foi cercado e atacado por manifestantes, que temeu pela sua segurança e pela da sua esposa (que estava no carro e é cadeirante), e que por isso “forçou a saída”. Ele negou que tenha tentado atropelar alguém e classificou o episódio de encenação.


Classificar o episódio como “encenação” não apenas desloca a responsabilidade como desqualifica, de forma simbólica, a própria legitimidade da manifestação indígena. Ao sugerir que o risco registrado em vídeo teria sido uma espécie de teatro, o vereador não dialoga com a gravidade das imagens — ele as desautoriza. Essa estratégia retórica é conhecida: quando o fato constrange, questiona-se a intenção de quem denuncia. Mas transformar corpos indígenas em supostos atores de uma cena fabricada é insistir na velha lógica de negar a dor do outro para preservar a própria narrativa.


A crítica pública exige responsabilidade, sobretudo de quem ocupa um mandato. Minimizar o ocorrido como encenação não esclarece; ao contrário, aprofunda a tensão e reforça a percepção de que, diante de povos historicamente silenciados, ainda se prefere desacreditar a vítima a enfrentar o conflito com honestidade institucional.

Mas há outro ponto fundamental: o pedido de cassação na Câmara Municipal. A cassação não deve ser tratada como vingança política, e sim como mecanismo institucional de responsabilização. Mandato não é escudo para conduta incompatível com o decoro parlamentar. Se houve tentativa de atropelamento, houve uma ameaça concreta à integridade física de cidadãos — e isso não pode ser relativizado por alinhamento ideológico.

A Câmara Municipal tem diante de si uma escolha histórica: proteger corporativamente um dos seus ou reafirmar que a democracia exige limites. O silêncio institucional, nesses casos, é também posicionamento.


Mais grave ainda é perceber como parte da sociedade reage com indiferença — ou até aplauso — quando a violência atinge povos indígenas. Isso revela o quanto o racismo estrutural ainda organiza as hierarquias de indignação no Brasil. Se o alvo fosse outro grupo social, a reação seria a mesma?


A ocupação da Cargill não acontece no vazio. Ela se insere em uma longa disputa entre grandes empreendimentos e comunidades tradicionais na Amazônia. A presença de multinacionais, o avanço do agronegócio, a pressão sobre territórios e a criminalização de lideranças são peças de um mesmo tabuleiro.


Quando um vereador tenta intimidar manifestantes com um carro, ele não está apenas reagindo a um protesto. Ele está performando poder. E poder, quando exercido para amedrontar, deixa de ser representação e passa a ser opressão.

Este episódio precisa ser investigado com rigor. Não para alimentar polarizações vazias, mas para reafirmar um princípio básico: ninguém está acima da lei. Muito menos aqueles que juraram defendê-la.

A Amazônia já carrega cicatrizes demais para aceitar que a política vire instrumento de atropelo — literal ou simbólico — contra seus povos.


Talvez o que mais choque não seja apenas a cena do carro avançando. É perceber como rapidamente a sociedade aprende a conviver com imagens assim. Como se fosse normal que o poder acelere diante da resistência.


Já se passaram vários dias. Mas a pergunta continua parada na frente desse Camaro imaginário: Quando foi que achamos aceitável que o diálogo fosse substituído pela ameaça? E, sobretudo: até quando?


 


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