Vigiados por Dentro: A ABIN e os Espiões Indígenas nas Manifestações
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Não é teoria conspiratória. Não é roteiro de filme. É memória viva, sussurrada nas aldeias e confirmada no silêncio das famílias.
Durante décadas, em diferentes regiões do Brasil, sobretudo no Amazonas, indígenas foram recrutados para atuar como informantes do Estado. A missão? Alimentar a inteligência oficial com tudo o que acontecia dentro dos territórios. Reuniões. Lideranças. Conflitos. Estratégias. Resistências.
Há histórias que só vieram à tona após a morte. Filhos que descobriram, no luto, que o pai, analfabeto, simples, silencioso, não trabalhava para a FUNAI como dizia. Ele desaparecia por dias. Voltava sem explicar. E somente depois de partir, soube-se: era informante. Um “parente espião”.
Isso revela algo profundo e perturbador: O governo sempre soube. Mesmo nos lugares onde o mapa falha. Mesmo onde o rio é a única estrada. Mesmo onde o acesso exige dias de viagem.
Em 2023, durante uma ida ao território no Vale do Javari, eu vivi algo que mudou minha percepção para sempre.
Conheci um agente da ABIN. Ele veio até mim. Sabia tudo sobre mim. Tudo. Trabalha monitorando o Vale do Javari, uma das regiões mais sensíveis e vigiadas do país.
A conversa foi breve, direta, quase fria:
— Você está dando muito trabalho por aqui. Precisa se cuidar mais.
Nos encontramos duas vezes. Ele me deu “dicas”. Alertas velados. E o mais desconcertante: ele não se parecia com o estereótipo do espião de cinema. Não era o “James Bond” que a imaginação constrói. Era discreto. Misturava-se. Invisível na multidão.
Naquele momento compreendi algo essencial: Nunca estamos sozinhos.
Quando enfrentamos violações de direitos humanos, quando denunciamos invasões, quando denunciamos dragagens, garimpo, omissões… alguém está observando.
Pouco tempo depois, em um evento, uma parente indígena compartilhou sua dor. O pai havia falecido. Somente após sua morte descobriram que ele também era informante. Levava informações do território para o governo.
Coincidência? Ou padrão?
Quantos foram recrutados sob pressão? Quantos por medo? Quantos por promessa?Quantos por sobrevivência?
E agora, diante das manifestações contra a dragagem do Rio Tapajós, a pergunta ecoa mais forte do que nunca:
Quem são os indígenas infiltrados entre nós?
Não se trata de paranoia. Trata-se de entender como o poder opera.
Quando o Estado infiltra seus olhos dentro das próprias comunidades, ele fragmenta laços, semeia desconfiança e transforma o território, que deveria ser espaço de vida, em espaço de vigilância.
Mas há algo que eles jamais conseguiram infiltrar: A memória ancestral. A força coletiva. A consciência de que o território não é mercadoria.
Se vigiam, é porque temem. Se monitoram, é porque sabem da potência da resistência.
A pergunta final talvez não seja apenas quem são os infiltrados.
Talvez a pergunta mais profunda seja: Por que o Estado teme tanto a organização dos povos originários?
Porque quando os guardiões se levantam, a floresta fala. E quando a floresta fala, o mundo escuta.

















